4 de abril de 2025
Renato Dantas: mente e coração moldados na arte de fazer teatro

Foto: Reprodução

(Homenagem póstuma)

Coluna O Verbo Feminino, por Íris Tavares

Nosso querido e saudoso Francisco Renato Sousa Dantas, nasceu em 23 de março de 1949 e faleceu em 10 de agosto de 2024.  Natural de Juazeiro do Norte-Ce. Educador físico de formação, dedicado ao exercício de formar pessoas e transformar corações e mentes. Aprendi a ser sua fã incondicional na minha adolescência e permaneço, até hoje. Na década de setenta o professor frequentava a casa de meus avós, pois os meus tios foram seus alunos e participavam das equipes do voleibol e do futebol. Vê-los planejando as jogadas e as estratégias para vitória me comoviam, tanto quanto a emoção de presenciar a sua performance quando estreava no palco de teatro da insurreta urbe juazeirense.

O ator que emergia das entranhas de Renato foi posto à prova estreando no palco com seus tenros nove anos de idade. O rebento de uma família romeira oriunda de Alagoas e da Paraíba se tornou uma das maiores referência na história do teatro do Cariri Cearense e do Nordeste. Foi responsável pela intensidade do movimento das artes cênicas numa região marcada pelo coronelismo e a violência política e de gênero, além do forte preconceito com a classe artística e a ausência de politicas públicas de financiamento e apoio as manifestações culturais. Foi o mentor da Construção 10, um grupo de atores homens dedicados ao labor do teatro e que mais tarde o grupo foi ampliado para Construção que, partir de então, adotava o recorte de gênero na sua composição. Depois veio o Matulão, cuja proposta fora enfatizar a música. Grupo representado pelo músico Luís Fidelis. Teatro e música se entrelaçaram nesse rico movimento que fez florescer os festivais e shows estreando as músicas autorais. O que seria do Grupo de Teatro Livremente sem a direção magistral de Renato? Nas peças espetaculares de Comadre Daiana e Dentro da Noite Escura.

A resistência brotava com firmeza e jovialidade, através do trabalho permanente dessa pessoa, como teatrólogo, educador, gestor e pesquisador. A sua capacidade de dialogar e abrir caminhos para a arte e os seus fazedores, sem dúvida foi um dos maiores desafios experimentados por ele, como gestor público que foi, tanto no setor da educação como da cultura.

Sabemos que antes da sua última partida, o professor estava pesquisando e se aprofundando cada vez mais na história da Beata Maria de Araújo e no milagre que veio à tona em meio a uma grande comoção social. O que é o milagre? Posso escutar claramente a voz pausada e enfática do meu conterrâneo a me indagar. E por isso cresce esse sentimento de pertença, da nossa identidade com o território e a certeza de que nós não somos produtos do embuste.

Temos tanto para dizer ao nosso querido amigo, esse ser humano sensível e desapegado das coisas materiais. Pela boniteza! Seu empenho a tudo que em vida realizou. Pelo exemplo de amor as suas raízes. “Sou filho de romeiros”. Um intelectual com a alma de sua gente. Nosso confrade no Instituto Cultural do Vale Caririense. Nossa gratidão pelos seus ensinamentos e por continuar conosco na construção da nossa memória.