6 de maio de 2026

Com a coluna o Verbo Feminino a historiadora Íris Tavares debate e analisa temas importantes como política, sociedade e cultura. Além de temas pertinentes à Região do Cariri. Editada toda sexta-feira no jornal Leia Sempre Brasil.

COLUNA O VERBO FEMININO
POR ÍRIS TAVARES
Jornal Leia Sempre Brasil
Edição nº 162 – 05.05.2023

Guardo na memória episódios da minha meninice em família, fatos marcantes que animavam a conversa no almoço do domingo, sobre as idas e vindas dos familiares e suas novas aquisições a partir da Feirinha do Troca (FT). Hoje revelam-se presentes no cotidiano das lutas que abraçamos. A exemplo das pautas que debatemos sobre o desenvolvimento urbano inclusivo, o trabalho informal, a geração de renda e a economia solidária. Vislumbramos na experiência real da FT, conforme pesquisa que estamos levantando, que o movimento de ocupação remonta desde a década de 1970, tem se mantido e resistido as investidas e a indiferença do poder público local, pois durante o cinquentenário da sua existência experimentou algumas remoções, desde o Pirajá, Romeirão e em 2011 para o bairro João Cabral ao lado do Mercado dos Peixes.

São mais de dois mil e quinhentos feirantes e ambulantes que atualmente ocupam a extensão do espaço público ao lado do Mercado dos Peixes, todavia as estruturas são bastante precárias para as trabalhadoras e trabalhadores da feirinha, além da inexistência do saneamento que impacta negativamente na saúde, não somente das feirantes e ambulantes, mas de todas as pessoas que circulam por ali e frequentam a Ferinha do Troca. Podemos imaginar um simples cálculo se considerarmos que, para cada feirante/ambulante, há uma relação familiar de dependentes em torno de quatro pessoas por domicilio, isso significa que são dez mil pessoas que se beneficiam direta ou indiretamente com a renda daquele comércio, originalmente caracterizado pela troca e venda de produtos.

No primeiro de maio na terra do Padre Cícero e da Mãe das Dores, conhecemos o poeta frequentador da feirinha, também batizado com o nome de Cícero. Foi ele quem recitou para mim, no meio da feirinha, um poema de sua verve que ressalta a coragem, a honestidade e a disposição das filhas e filhos de Nossa Senhora para trabalhar. Mais ele dizia: “aqui somos perseguidos e tratados como larápios, ao invés de sermos respeitados pelo que somos e o que queremos, espaço digno para trabalhar.”

Indagamos a atual gestão bolsonarista de Juazeiro do Norte sobre suas promessas de campanha. Onde estão os compromissos e ações que deveriam estar a serviço da melhoria do seguimento de feirantes/ambulantes que continuam marginalizados e sendo tratados como a escória da economia local. Sentimos a falta de um trabalho com cooperação e parceria nesse seguimento. Nada que fortaleça e valorize a organização comunitária e associativa dos grupos de interesse das feirantes/ambulantes do município. É um abandono que chega a doer. Não existe um programa voltado para essa categoria, sequer um banco de dados com cadastro integrando feirantes/ambulantes no atendimento emergencial das políticas públicas de acesso ao direito humano a alimentação adequada, a moradia digna, a educação, a formação/capacitação, saúde, cultura e lazer. É um desprezo só!
Se alguma leitora/leitor da nossa coluna souber de alguma iniciativa do poder público local em relação aos feirantes/ambulantes da nossa tradicional Feirinha do Troca, por favor nos comunique. Salve os feirantes/ambulantes de Juazeiro do Norte.