Com a humilhação histórica de Trump nas urnas, os dias dos Bolsonaros nos EUA estão contados

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sofreu a maior humilhação política que o partido Republicano viu em décadas. Nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3), os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado dos Estados Unidos, encerrando a maioria republicana nas duas Casas do Congresso. O resultado representa uma rejeição direta ao governo Trump e reduz drasticamente a capacidade do presidente de impor sua agenda nos dois últimos anos de mandato. Isso interessa ao mundo, e especialmente ao Brasil. Para a família Bolsonaro, que apostou na aliança com Trump como instrumento de proteção política e pressão sobre o Brasil, a derrota tem consequências diretas: perderam o padrinho e o abrigo.
A dimensão da vitória democrata aparece no mapa eleitoral. No Texas, estado que Trump venceu com ampla margem em 2024, James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton e conquistou uma cadeira no Senado. Na mesma eleição, Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott. Os democratas voltaram a conquistar o governo texano depois de 36 anos, em uma das derrotas mais simbólicas para o trumpismo.
Na Carolina do Sul, outro tradicional reduto republicano, a democrata Annie Andrews derrotou Darline Graham na disputa pelo Senado. Trump havia vencido o estado por quase 18 pontos percentuais em 2024. Em Ohio, Sherrod Brown derrotou o republicano Jon Husted, recuperando uma cadeira que havia sido ocupada pelo atual vice-presidente JD Vance. O estado também elegeu a democrata Amy Acton para o governo, derrotando Vivek Ramaswamy, candidato apoiado por Trump.
Na Câmara dos Representantes, os democratas também conquistaram a maioria. A mudança de comando abre caminho para Hakeem Jeffries assumir a presidência da Casa, tornando-se o primeiro homem negro a ocupar o posto. No Senado, os democratas também recuperaram o controle, depois de conquistar cadeiras que estavam nas mãos dos republicanos. Trump perdeu, assim, sua sustentação parlamentar nas duas instituições centrais do Congresso.
A inflação, o custo de vida e a condução da guerra contra o Irã foram determinantes para o desgaste de Trump. Pesquisas de boca de urna indicaram que quase nove em cada dez eleitores consideraram o custo de vida um fator importante ou decisivo na escolha. Quase dois terços responsabilizaram Trump pelos preços elevados, enquanto três quartos disseram estar insatisfeitos ou irritados com os rumos do país.
A coalizão eleitoral que levou Trump de volta à Casa Branca em 2024 também mostrou sinais de ruptura. Republicanos perderam apoio entre jovens, eleitores latinos e homens negros. A tentativa de transformar a disputa em uma campanha contra os supostos perigos de um governo democrata não funcionou. Os eleitores estavam mais preocupados com o preço dos alimentos, da gasolina e com a situação econômica.
Flávio Bolsonaro repete a fuga do pai e encontra Trump enfraquecido
A derrota republicana ocorre em um momento particularmente delicado para Flávio Bolsonaro, que deixou o Brasil após perder a eleição presidencial de 25 de outubro para Luiz Inácio Lula da Silva. Ao buscar abrigo político nos Estados Unidos depois do revés nas urnas, Flávio reproduziu o comportamento de seu pai, Jair Bolsonaro, que viajou para território norte-americano no fim de dezembro de 2022, após ser derrotado por Lula na disputa pela Presidência.
A repetição do episódio revela um padrão na atuação política da família. Em vez de permanecer no Brasil para enfrentar as consequências políticas de uma derrota eleitoral, Flávio optou por seguir o caminho do pai e se aproximar do principal aliado internacional do bolsonarismo. A diferença é que, desta vez, a família encontra um presidente norte-americano profundamente enfraquecido, sem maioria parlamentar e diante de uma oposição fortalecida pelo voto popular.
Quando Jair Bolsonaro deixou o Brasil em 2022, seu destino foi a Flórida, onde permaneceu durante os primeiros meses do novo governo Lula. A viagem ocorreu às vésperas da posse presidencial e antecedeu os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Agora, quatro anos depois, Flávio também deixa o país após uma derrota para o petista, em uma conjuntura marcada pelo desgaste da extrema direita nos dois países.
A presença de Flávio em território norte-americano não significa, por si só, que exista um processo de extradição ou uma ameaça imediata à sua permanência no país. Mas sua decisão de deixar o Brasil após a derrota eleitoral adquire uma dimensão política distinta quando o governo que poderia lhe oferecer respaldo perde parte substancial de sua capacidade de ação.
O filho de Jair Bolsonaro chega, portanto, a um ambiente muito diferente daquele que a família imaginava encontrar. Trump continua na Presidência, mas terá de administrar uma relação conflituosa com um Congresso controlado pela oposição. A capacidade de transformar a máquina do Estado norte-americano em instrumento de pressão sobre o Brasil passa a enfrentar obstáculos institucionais mais relevantes.
Eduardo Bolsonaro perde força em Washington
O enfraquecimento de Trump também atinge diretamente Eduardo Bolsonaro, que transformou sua atuação nos Estados Unidos em um esforço permanente para obter apoio do governo republicano contra autoridades brasileiras. A família apostou na proximidade com o presidente norte-americano para constranger o Supremo Tribunal Federal, questionar decisões da Justiça brasileira e criar obstáculos à responsabilização dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado.
Com a vitória democrata, essa estratégia enfrenta um cenário muito mais adverso. A oposição passa a controlar comissões parlamentares, definir prioridades de fiscalização e convocar integrantes do governo para prestar esclarecimentos. A atuação de autoridades norte-americanas em favor de aliados estrangeiros de Trump poderá ser submetida a questionamentos mais intensos.
O caso de Alexandre Ramagem é um dos exemplos mais concretos dessa relação. Condenado pelo STF a 16 anos de prisão por participação na trama golpista, o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência fugiu para os Estados Unidos em setembro de 2025. O Brasil formalizou o pedido de extradição em 30 de dezembro daquele ano. Em abril de 2026, Ramagem foi detido pelo serviço de imigração norte-americano, mas acabou liberado dois dias depois, enquanto aguardava a análise de seu pedido de asilo.
Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), publicada em outubro, revelou circunstâncias ainda mais graves. Um agente da Polícia Federal brasileira que colaborava com o serviço de imigração dos Estados Unidos para localizar Ramagem foi obrigado pelo Departamento de Estado a deixar o país poucos dias depois da liberação do ex-deputado. A decisão foi apresentada pelo governo norte-americano como uma reação à atuação do policial brasileiro. Eduardo Bolsonaro comemorou a liberação de Ramagem e agradeceu publicamente a Trump e a integrantes de seu governo.
O episódio demonstrou que a administração republicana estava disposta a tratar o caso de um aliado do bolsonarismo de maneira politicamente favorável, mesmo diante de um pedido formal de extradição apresentado pelo Brasil. Segundo a investigação do ICIJ, o governo norte-americano ainda não havia respondido ao pedido brasileiro.
Democratas ganham instrumentos para investigar proteção a bolsonaristas
A derrota de Trump muda essa equação. Com os democratas no comando das duas Casas, a oposição passa a ter instrumentos muito mais fortes para fiscalizar a administração, convocar autoridades, abrir investigações e questionar decisões do Departamento de Estado e dos órgãos de imigração. A relação com o Brasil e o tratamento dispensado a aliados estrangeiros do presidente poderão entrar no radar dos parlamentares.
O controle do Congresso não transfere aos democratas a competência para decidir diretamente sobre extradições ou pedidos de asilo. Essas decisões envolvem o Judiciário e o Poder Executivo norte-americano. Trump continua presidente e mantém autoridade sobre a condução da política externa e da estrutura federal de imigração. Mas perdeu uma importante base de sustentação institucional. Qualquer tentativa de prolongar privilégios políticos a aliados estrangeiros estará submetida a maior escrutínio e enfrentará custos políticos crescentes.
O resultado também enfraquece a capacidade de Trump de utilizar o peso econômico e diplomático dos Estados Unidos para pressionar o Brasil. A política de sanções e tarifas adotada contra o governo Lula, assim como as iniciativas de Eduardo Bolsonaro para estimular medidas contra autoridades brasileiras, passam a enfrentar um ambiente político muito menos favorável em Washington.
A situação de Flávio, Eduardo e Ramagem evidencia os riscos da estratégia internacional do bolsonarismo. Os três se encontram vinculados, em diferentes circunstâncias, a uma aposta política que dependia da força de Trump e da disposição de seu governo para oferecer respaldo aos aliados brasileiros. Com a mudança no equilíbrio de poder em Washington, essa proteção se torna politicamente mais custosa.
O fim da retaguarda internacional do bolsonarismo
A família Bolsonaro construiu sua estratégia internacional sobre a expectativa de que Trump permaneceria politicamente forte e poderia oferecer proteção aos aliados brasileiros. As eleições de 3 de novembro mostraram os limites dessa aposta. O presidente norte-americano perdeu as duas Casas do Congresso, viu candidatos escolhidos pessoalmente por ele serem derrotados em estados republicanos e sofreu uma rejeição eleitoral que alcançou regiões antes consideradas seguras para seu partido.
Para Flávio Bolsonaro, a conjuntura é especialmente desfavorável. Derrotado por Lula nas urnas brasileiras e agora instalado nos Estados Unidos, ele vê o principal aliado internacional de sua família sofrer uma derrota histórica poucos dias depois de sua própria derrota presidencial. A sequência de resultados representa um revés para a estratégia de articulação entre a extrema direita brasileira e o trumpismo.
Eduardo Bolsonaro também terá de lidar com uma nova realidade institucional. Sua capacidade de mobilizar integrantes do governo norte-americano contra autoridades brasileiras poderá ser reduzida pela fiscalização parlamentar e pelo desgaste político de Trump. No caso de Ramagem, a situação jurídica continuará dependendo das autoridades competentes, mas eventuais decisões favoráveis ao ex-deputado poderão enfrentar questionamentos mais intensos.
Os Bolsonaros não perderam automaticamente seus canais de influência nos Estados Unidos. Tampouco a vitória democrata significa que o governo norte-americano deixará de manter relações políticas com aliados estrangeiros de Trump. O que mudou foi a correlação de forças. Sem o controle do Congresso, o presidente terá mais dificuldade para sustentar uma política de proteção a aliados internacionais e de confronto com governos que não se alinham aos seus interesses.
Trump já não dispõe da mesma força política que tinha quando retornou à Casa Branca. Depois de ver Jair Bolsonaro perder para Lula em 2022 e Flávio repetir a derrota em 2026, a extrema direita brasileira assiste agora ao enfraquecimento de seu principal patrocinador político internacional.
A família Bolsonaro apostou na força de Trump para manter os Estados Unidos como uma retaguarda política diante das derrotas e dos problemas enfrentados no Brasil. A humilhação eleitoral do republicano vai encerrar esse ciclo. Os dias em que os Estados Unidos funcionavam como porto seguro do bolsonarismo estão chegando ao fim.
fonte: Brasil 247