Coluna Notícia

 31 de outubro: um poeta escorpiano chamado Carlos Drummond de Andrade

P11 Nordestinados a Ler Carlos Drummond 01

Por Luciana Bessa

Embora Vinícius de Morais tenha poetizado que haja muitos desencontros pela vida (é bem verdade), vou me apegar ao início do verso: “A vida é arte do encontro”.

Alguns encontros são combinados, outros casuais e, alguns poucos, marcados pela sincronicidade. Assim aconteceu entre mim e o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, nascido no dia 31 de outubro, Halloween, sob o signo de escorpião (Representa pessoas fortes, que amam de forma intensa e buscam profundidade e sentido em tudo o que fazem). Pena que no amor touro e escorpião não consigam se entender. Tentei duas vezes!

Cursava Letras na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e a professora da disciplina de Literatura Brasileira II, Ana Vládia Mourão (hoje minha colega na Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno), pediu a turma de Literatura Brasileira II, que escolhesse um escritor para apresentar o seminário final da disciplina.

Naquele exato dia, antes de sair para o trabalho (sempre trabalhei/estudei), peguei um livro com a capa vermelha, Coleção Literatura Comentada, em cuja capa (letras amarelas) estava escrito “Carlos Drummond de Andrade”. À medida que os colegas me antecediam citavam nomes como, Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima, eu me perguntava: “Quem, Luciana?”. Lembre-me do livro colocado na mochila. Rapidamente o abri e vi os subtítulos: “Instaura-se a modernidade” e “Expande-se a modernidade”. Estava eu diante de um escritor moderno!

Quando a professora disse meu nome fui categórica: “Carlos Drummond de Andrade”. Enquanto escutava os outros colegas se pronunciarem, me questionava: “E se eu não gostar dele, poderei escolher outro escritor?” “Se ele não me tocar, como vou me debruçar sobre sua vida e sua obra?”. Fui educada a me distanciar do objeto de pesquisa para melhor apreendê-lo. Anos depois descobri que não é bem assim, mas ficará para um outro texto essa história.

Continuei folheando o livro e na página 43 – TEXTOS SELECIONADOS – encontrei o “Poema de Sete Faces”:

Quando eu nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida…

Eu não sabia o significado da palavra “gauche”. Foi então que me dei conta do significado da palavra em uma nota de rodapé: “adjetivo francês que, no caso, significa sem jeito. Postura peculiar ao poeta em face de si e do mundo”. Naquele momento, eu encontrei alguém que eu nunca tinha visto, mas que era exatamente como eu: “sem jeito”.

Desde a adolescência eu me sentia diferente dos meus (poucos) colegas. Eles gostavam de sair, se divertir, beber, namorador, estudar para as provas em cima da hora.

Cresci escutando: “A Luciana é muito certinha”. A sensação de incompreensão, de insivisibilidade, de inadequação, de não pertencimento sempre andou de “Mãos Dadas” comigo.  Cresci me perguntando: “Por que sou assim?”.

Então, encontrar alguém que se sentia e que falava de suas emoções foi uma virada de chave na minha vida. Saber que existia no mundo (mesmo que já tivesse partido) alguém que colocava para fora seu sentimento de vulnerabilidade e de não pertencimento gerou uma identificação imediata. E logo pensei: “será que existem mais gauches pelo mundo?”.

Dediquei-me de corpo e alma aquele seminário intitulado: “Carlos Drummond de Andrade: um poeta gauche no tempo”. Tirei nota 9,5. Dessa vez eu não fui perguntar a professora o porquê da nota (Ana Vládia tinha sido minha professora em Literatura Brasileira I e “me deu” 9,5 na prova em que falei sobre vida e obra de Monteiro Lobato. Quando perguntei o motivo, ela me questionou: “O que você escreveu sobre Lobato que já não tem nos livros?”.  É verdade que eu amava/amo tirar nota 10 (Sou dessas), mas estava feliz demais por ter encontrado Carlos Drummond de Drummond.

Poeta, cronista, contista, redator, jornalista, Drummond foi, sobretudo, um observador e um leitor arguto do seu tempo. Ele escreveu versos (vinte obras) “como quem explode”. Passeou por ritmos, sons e sensações, mas o cerne da sua obra é a lírica, até chegar à universalidade.

“O poeta público do Brasil”, nas palavras do crítico Otto Maria Carpeaux, assemelhava-se a um bruxo, “que tinha perdido o bonde e a esperança e voltado pálido para casa” (“Soneto da perdida esperança”), ele  ousou dizer “que não sabia que a sua história era mais bonita que a de Robinson Crusoé (“Infância”), como filho, registrou o infantil desejo de ser rei do  mundo,  para  determinar  que  “mãe não morre nunca, / mãe ficará sempre junto,/ junto de seu filho” (“Para sempre”) ; se ele mudasse de nome e  se chamasse Raimundo, ou atendesse  por “José”, ainda, assim, não seria uma solução para os seus infortúnios (“Poema de Sete Faces”); que enfrentou obstáculos como o convencionalismo, a aparência, os desencontros amorosos e o “medo que esteriliza os abraços” (“Congresso internacional do medo”) etc.

Leu inicialmente o mundo, depois, as palavras. Colheu algumas e apropriou-se de outras para construção de sua Poética tornando-se um lutador, ou melhor, um escritor. Recusou-se a rimar palavras, a fazer versos sobre os aniversários e sobre os incidentes pessoais. Encontrou algumas “pedras no caminho”, mas criou seu próprio método: as palavras soltas e libertas à mercê dos escritores. Nessa luta constante e inglória, decifrou enigmas, construiu novas palavras e tornou outras mais belas, aderiu à causa dos homens que sofrem em meio às incertezas trazidas pela máquina capitalista, chegou a pensar que a poesia era incomunicável, mas ciente de que o tempo presente era sua matéria, conclamou a todos a permanecerem de “Mãos Dadas”, porque entendia a poesia como resistência.

Ler Carlos Drummond de Andrade é encontrar uma poética capaz de reinterpretar a sua época, pois o homem-escritor é um ser-no-mundo e se define a partir de sua relação com ele. Ser reconhecido por sua e por gerações posteriores requer mais do que sensibilidade, emoção, subjetividade, requer envolvimento e compromisso com seu tempo e um trabalho sério com as palavras. Parabéns, Drummond!!!