Lula promete governar para 215 milhões de brasileiros; ‘A gente não tem mais adversário’; leia a íntegra do discurso

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que pretende governar para os 215 milhões de brasileiros no próximo mandato, independentemente de posições políticas ou do voto dado nas urnas. No discurso da vitória, neste domingo (25), após derrotar Flávio Bolsonaro (PL) por cerca de 4,5 milhões de votos, Lula declarou que a eleição encerra a disputa entre candidatos e dá início à responsabilidade de administrar o país para toda a população.
“Mais uma vez quero dizer para vocês que na medida que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões, tenho que governar para todas as idades”, afirmou o presidente reeleito durante a comemoração em São Paulo.
Lula também prometeu mudar a forma de governar, ampliar a participação dos brasileiros nas decisões e trabalhar com o Congresso Nacional, mesmo diante de uma composição mais conservadora. Entre as prioridades anunciadas estão políticas de cuidado com os idosos, respeito às mulheres, liberdade religiosa, investimentos em educação e saúde e uma atuação maior do governo federal na segurança pública.
Ao abordar os desafios do próximo mandato, Lula afirmou que a vitória eleitoral não significa que todos os brasileiros precisem concordar com o presidente eleito. Segundo ele, o compromisso do governo será respeitar a Constituição e trabalhar para atender à população.
“Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito à Constituição.”
O presidente também comentou as dificuldades que poderá enfrentar no relacionamento com o Legislativo. Ao reconhecer que o Congresso terá um perfil mais conservador, afirmou que pretende negociar e buscar apoio para aprovar as propostas do governo.
“Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.”
Segurança pública terá participação maior do governo federal
Lula afirmou que pretende ampliar a atuação do governo federal na segurança pública. No discurso, argumentou que os estados não conseguem responder sozinhos às demandas da área e prometeu medidas para garantir mais tranquilidade aos trabalhadores e às famílias.
“O governo federal nunca teve responsabilidade com segurança pública porque a Constituição de 1988 transferiu toda a responsabilidade para os estados. Agora está provado que os estados não dão conta. Nós vamos entrar agora, vamos entrar para devolver, para devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores, a tranquilidade e a paz que eles precisam.”
Na sequência, o presidente resumiu a proposta com uma declaração sobre a proteção da população e o combate à criminalidade: “Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão.”
Presidente promete ampliar participação popular
Outra mudança anunciada por Lula é a ampliação da participação popular nas decisões do governo. O presidente afirmou que a campanha eleitoral lhe trouxe lições e que pretende adotar uma nova forma de relacionamento com a sociedade.
“Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país. Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais nas nossas decisões.”
Lula também afirmou que a comunicação digital terá mais espaço no próximo mandato. Ele disse que pretende conversar diretamente com os brasileiros com maior frequência e apresentar suas posições sem depender exclusivamente da interpretação de terceiros.
Leia a íntegra do discurso de Lula após a reeleição
A seguir, a íntegra do pronunciamento do presidente reeleito, conforme o texto publicado:
“Feliz o presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade que eu tenho no [Geraldo] Alckmin [PSB]. A primeira coisa é que hoje a minha fala para a imprensa é agradecimento. Nós tivemos o menor número de abstenções da história desse país. Nós tivemos o menor número de votos nulos deste país.
E eu tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a nossa campanha, aos partidos que participaram junto conosco, mas eu queria agradecer ao povo brasileiro, a generosidade que eles têm comigo há muito tempo. E nesse segundo turno, agradecer a generosidade da juventude brasileira que foi para a rua, foi para rua para defender a democracia.
Quero agradecer às pessoas idosas. Eu vi cenas hoje de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para ir votar, pessoas impossibilitadas de se locomover, pessoas com câncer e com outros tipos de doença. E as pessoas foram votar porque nós conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar a democracia no país. Quero agradecer à sociedade como um todo.
Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país.
Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, foi uma derrota da mentira. E eu confesso a vocês que cada vez que eu ia em um debate eu ficava constrangido, porque eu já debati com muita gente, já participei de muitas eleições, me reúno todo ano com G20, com os Brics, com G7, me reúno todo ano com os principais presidentes do mundo discutindo os principais assuntos do mundo, mas eu nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do milicianismo desse país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez. Como se não tivesse dentro dele uma célula de humanismo. Parece tudo falso.
Eu estou dizendo isso porque vocês sabem que o que eu vi nesse segundo turno dessas eleições, o que eu vi em todos os estados brasileiros, mas sobretudo o que eu vi na avenida Paulista ontem, é algo que eu não acredito –que o Alckmin, que foi governador, que participou da campanha das Diretas–, a gente nunca conseguiu ver, não só pela quantidade de gente, mas pelo entusiasmo.
E eu fiquei muito emocionado porque me deu vontade de pedir na frente do Masp (Museu de Arte de São Paulo), pra cantar o Hino da Independência. E eu fiquei boquiaberto de ver o entusiasmo das pessoas cantando o Hino da Independência, sobretudo quando falava ‘brava gente brasileira, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil’, numa demonstração de que esse país não aceita ser quintal de ninguém.
Como disse uma vez o meu cantor preferido, Chico Buarque de Hollanda, ele gostava do nosso governo porque o nosso governo não falava grosso com a Bolívia e não falava fino com os Estados Unidos. A gente falava igual com todo mundo.
Eu quero agradecer a esse companheiro aqui, o [André] Janones, [deputado federal por Minas Gerais], nosso general que teve um papel exponencial nessa campanha para levantar diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa. Não vou falar aqui para vocês, mas essas eleições me ensinou (sic) muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país. Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais nas nossas decisões.
E quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo. Eu inclusive já ganhei um celular do meu comandante Rafael [Fonteles], governador do Piauí. Já estou aprendendo a conversar com meu general e pode ficar certo que daqui pra frente eu vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço.
Nessas eleições, eu quero que vocês saibam que uma das coisas que mais me motivou é a gente não permitir que essa gente ganhasse para privatizar o nosso SUS [Sistema Único de Saúde].
Mais uma vez quero dizer para vocês que na medida que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões, tenho que governar para todas as idades. Mas no próximo mandato eu vou levar muito a sério a política de cuidado com os nossos velhinhos, que são responsáveis pela nossa existência. Quero dizer para vocês que as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras.
Quero dizer para vocês que as religiões serão todas respeitadas em igualdade de condição. Eu não tenho preferência por nenhuma religião. Eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro. E que eles exerçam a sua fé e a sua espiritualidade do jeito que eles quiserem. Ao Estado laico cabe garantir a liberdade religiosa plena para que as pessoas possam exercitar a sua fé com plenitude.
Quero dizer para vocês que eu vou continuar fazendo a revolução na educação brasileira. Nós iremos universalizar escola de tempo integral nesse país até o ensino médio. Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia para o ensino médio e vamos criar o Pé-de-Meia universitário para que nenhum jovem, nenhuma menina desistam de estudar porque tem que trabalhar.
Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, eu quero criar uma brasileira.
Nós temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tenha mais capacidade de energia renovável para trazer para cá os data centers necessário para acumular também o nosso dado para o Brasil. E essa gente vai ter que deixar uma parte do data center para informações brasileiras.
Nós queremos fazer desse país um país que pare de ser um país em vias de desenvolvimento e se transforme num país desenvolvido. Como diria o Rafael [Fonteles], muito investimento na economia digital, na economia verde e na economia criativa.
Este país vai ser construído não por mim, porque muitas das coisas que eu estou falando aqui eu nem sei, é por vocês. Porque nós vamos exercitar o potencial criativo desse povo a deixar de ser um país periférico. Nós queremos ser um país central nas decisões políticas, econômicas e nas decisões pela paz.
E nós vamos ensinar ao mundo como é que se trata as políticas climáticas nesse país. E esse ano é a primeira vez que a gente consegue reduzir o desmatamento quatro anos consecutivos nesse país. Por isso eu quero agradecer a nossa companheira Marina [Silva, ex-ministra do Meio Ambiente], ao nosso companheiro João Paulo Capobianco [atual ministro do Meio Ambiente], que tiveram um trabalho extraordinário.
Mas sobretudo, gente, nós vamos continuar, companheiro [Alexandre Padilha], fazendo a revolução do SUS. Eu estou convencido de que logo o Brasil será o país do mundo com maior percentual de tratamento de câncer.
Nós temos a nossa querida companheira Ludhmila [Hajjar], cuidando do nosso hospital inteligente, financiado pela companheira Dilma Rousseff, presidente do [Banco dos] Brics, junto com a USP [Universidade de São Paulo]. E vamos ter 15 UTIs [unidades de terapia intensiva] inteligentes nesse país para a gente não permitir que as pessoas morram por falta de tratamento.
Este país está pronto para ser construído. Eu não vou falar a palavra unidade nacional porque essa palavra nem sempre cabe nesse país, mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado. Esse país tem uma Constituição.
Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito à Constituição. Na relação, na relação com o Congresso. Porque já tem gente falando: ‘o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador’. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.
Eu quero dizer para vocês que eu tenho um orgulho muito grande. Primeiro porque eu sou o único presidente da República, um metalúrgico, sem diploma universitário, eleito quatro vezes democraticamente aqui no país. No mundo nós tivemos o [Franklin Delano] Roosevelt, [presidente dos Estados Unidos por quatro mandatos incompletos] que foi eleito quatro anos (sic), mas ele não conseguiu terminar o seu mandato porque ele tinha uma doença muito grave.
Agora, o Lulinha não vai querer outro mandato, mas vou terminar esse mandato inteiraço, correndo mais do que qualquer um de vocês, porque o respeito, o respeito que eu adquiri pelo esse povo e o carinho que esse povo tem dedicado a mim.
As manifestações de carinho que eu tenho recebido, sobretudo das mulheres brasileiras, é uma coisa que eu jamais imaginei, jamais imaginei que um político poderia receber a quantidade de carinho, de homenagem e de palavras carinhosas. Eu devo isso a vocês.
Eu sempre acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais preparada que eu, tanta gente com mais diploma que eu, tanta gente que já leu mais livros do que eu, tanta gente que já estudou mais do que eu. E por que eu fui escolhido por Deus? Eu fui escolhido por Deus porque eu sempre acho que tem o dedo de Deus na minha cabeça. Eu sempre acho. Então eu quero agradecer a Deus e agradecer a vocês, homens e mulheres desse país, pela força que vocês demonstraram.
Não fui eu e o Alckmin que ganhamos essas eleições. Essas eleições foi a honradez, o nacionalismo, a democracia e o futuro que vocês querem para os filhos de vocês que fez a gente virar. Diz que foi a primeira vez que a gente virou. É importante saber que é a primeira vez que virou, [mas eu] não sei o que virou, porque eu nunca ganhei eleição no meu 1º turno, mas nunca perdi nenhuma no 2º turno.
Eu tenho dois meses pela frente para discutir o governo. Quero me reunir com os empresários, quero me reunir com os educadores, quero me reunir com os cientistas, quero me reunir com as mulheres, vou me reunir com o Corinthians também. Porque porra, o Corinthians já perdeu outra, cara. Aonde que a gente vai? Tá parecendo o Bolsonaro, só perde, porra.
Então, gente, é o seguinte: pode ficar certo que eu quero que vocês anotem o que eu vou dizer aqui. Depois da amanhã, dia 27, eu completo 81 anos de idade, e eu quero assumir um compromisso na frente da imprensa e na frente de vocês: vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história desse país. Podem ficar certos. Vou dedicar 24 horas por dia para fazer desse país o país que todo mundo sonha, um país em que as pessoas saibam que vão dormir e vão acordar com muita tranquilidade.
O governo federal nunca teve responsabilidade com segurança pública porque a Constituição de 1988 transferiu toda a responsabilidade para os estados. Agora está provado que os estados não dão conta. Nós vamos entrar agora, vamos entrar para devolver, para devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores, a tranquilidade e a paz que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão. Um abraço, gente.
Eu vou para a [Avenida] Paulista só para agradecer. E eu quero aproveitar o meu general Janones aqui e dizer o seguinte: eu duvido que a Rússia, que a China e que os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia desse país. Um abraço aos soldados e às soldadas do nosso exército.”
Fonte : Agenda do Poder