Joice Hasselmann revela como descobriu o gabinete do ódio e denunciou o bolsonarismo ao STF

Ex-aliada de primeira hora e principal articuladora feminina da campanha de 2018, Joice Hasselmann expôs em detalhes a engrenagem interna, os métodos e os operadores do chamado “gabinete do ódio” — a estrutura clandestina de comunicação montada para difamar opositores, intimidar críticos e pautar narrativas coordenadas nas redes sociais.
Em depoimentos e declarações públicas, a jornalista e ex-deputada federal detalhou como o descontentamento inicial com os métodos do clã Bolsonaro evoluiu para uma investigação própria, culminando na quebra de sigilos informais de grupos de mensagens e na entrega formal do material ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A gênese da investigação: de aliada a alvo número um
Após romper com a cúpula governista em 2019 — em meio a atritos pela liderança partidária do PSL e disputas com os filhos do ex-presidente —, Joice viu a máquina de comunicação do grupo se voltar contra ela de forma imediata e massiva.
“Eu fui durante três anos e meio a pessoa mais atacada nas redes sociais. Todo dia eu estava no topo dos trending topics com alguém repetindo as mesmas frases, a mesma hashtag. Eu sou jornalista de investigação, não sou ingênua: aquilo era organizado, profissional.”
Os ataques, segundo a parlamentar, rapidamente extrapolaram a disputa política e atingiram o círculo familiar com montagens pornográficas, desqualificações corporais e ameaças explícitas de violência contra seus filhos, forçando-a a tomar medidas drásticas de segurança pessoal.
A infiltração e a quebra da cadeia de comando
Determinada a mapear as fontes dos disparos, Joice aproveitou seu conhecimento prévio da rotina palaciana para cruzar horários de postagens, perfis influenciadores e temas que emergiam do Palácio do Planalto. A virada na apuração ocorreu quando ela identificou parlamentares da base que participavam dos círculos de coordenação, mas temiam implicações jurídicas.
Segundo a ex-deputada, um dos integrantes forneceu acessos e credenciais sob a condição de não ter a identidade exposta:
“Cheguei em um deputado que sabia que estava no meio e avisei: ‘Sei que você está lá e vou levar ao Supremo’. Ele entrou em pânico e me entregou a senha. Eles tinham um grupo específico onde combinavam quem seria atacado, em que dia, quais hashtags usar e quais frases disparar. Tudo milimetricamente organizado.”
A ex-parlamentar aponta que os núcleos operavam de forma piramidal:
- Núcleo Estratégico: Assessores e lideranças instalados próximos ao centro do poder definiam as diretrizes e os alvos do dia.
- Núcleo de Transmissão Institucional: Deputados federais e senadores alinhados recebiam os comandos para reverberação imediata em suas bases e redes sociais.
- Núcleo Capilar e Automação: Deputados estaduais, vereadores, militantes de ponta e redes de automação (robôs patrocinados) multiplicavam o volume, criando a ilusão de espontaneidade pública.
A ida ao STF e o depoimento histórico na CPI
Com provas materiais, registros de conversas em tempo real e relatórios de fluxo de publicações, Joice formalizou a denúncia perante o STF, estabelecendo uma ponte direta que alimentou o Inquérito das Fake News, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.
“Levei esse parlamentar para conversar com o Supremo e com os responsáveis pela apuração. Foi a partir dali que o inquérito ganhou corpo com dados do interior da engrenagem.”
A exposição definitiva aconteceu durante seu depoimento de quase dez horas à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, no Congresso Nacional. Na ocasião, seu corpo jurídico logrou acesso remoto à conta ativa no momento em que as orientações de difamação eram redigidas pelos administradores do grupo, exibindo o conteúdo diretamente no telão do plenário:
“Enquanto eu falava sob juramento, meu advogado entrou no sistema com a senha fornecida e comecei a ler o que eles estavam conversando em tempo real. Até que apareceu a mensagem: ‘Ela pegou a gente’. Projetamos aquilo na parede para todo o plenário ver. Não era narrativa, eram fatos.”
O saldo do confronto
Para Hasselmann, o desmantelamento das operações digitais custou seu capital político entre os eleitores mais radicais e gerou desgaste físico e emocional contínuo, mas cumpriu o papel de expor a vulnerabilidade institucional gerada pela desinformação em massa:
“O gabinete do ódio não era apenas uma máquina de xingamentos; era um instrumento de intimidação para inviabilizar o dissenso democrático. Romper com aquilo e expor o método foi uma decisão sem volta, mas indispensável.”
fonte: DCM