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Juventude brasileira ocupa as ruas e coloca a democracia e os direitos sociais no centro das eleições de 2026

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A juventude brasileira volta a ocupar as ruas em um momento decisivo da política nacional. Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, manifestações estudantis, assembleias universitárias e mobilizações nas redes sociais demonstram que uma parcela organizada dos jovens pretende participar ativamente das decisões sobre os rumos do país. No centro das mobilizações estão a defesa da democracia, a ampliação dos direitos sociais e as condições necessárias para estudar, trabalhar e conquistar autonomia financeira.

A disputa eleitoral coloca em evidência projetos distintos para o Brasil. De um lado, estão propostas de continuidade e ampliação de políticas públicas de inclusão social. De outro, as pautas conservadoras e propostas que seus críticos associam ao enfraquecimento de direitos e ao avanço do autoritarismo. Para a juventude mobilizada, o debate não se limita à escolha de candidatos: envolve as condições de vida da população e as oportunidades que estarão disponíveis para as próximas gerações.

A história brasileira mostra que a participação dos jovens tem sido importante em momentos de transformação política. Durante a ditadura militar, estudantes enfrentaram a repressão e participaram da resistência ao regime. Em 1968, a Passeata dos Cem Mil, realizada no Rio de Janeiro, reuniu estudantes, artistas, intelectuais e outros setores da sociedade em protesto contra a violência da ditadura e em defesa das liberdades democráticas.

Na década de 1980, o movimento estudantil também participou da campanha das Diretas Já, que reivindicava o retorno das eleições diretas para presidente da República. Em 1992, os caras-pintadas ganharam destaque nas manifestações que pressionaram pelo impeachment do então presidente Fernando Collor.

Em diferentes períodos, a juventude transformou as ruas em espaços de reivindicação, organização política e contestação. Essa trajetória ajuda a compreender por que as mobilizações atuais ultrapassam as disputas eleitorais e incorporam questões relacionadas à educação, ao trabalho, à desigualdade e aos direitos humanos.

Após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, organizações estudantis intensificaram atividades em universidades e espaços públicos. A campanha Estudantes com Lula, articulada pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), alcançou mais de 40 universidades em pelo menos 13 estados e no Distrito Federal, segundo as informações divulgadas sobre a mobilização.

As atividades incluíram assembleias, caminhadas, panfletagens e atos políticos. Em Niterói, no Rio de Janeiro, estudantes da Universidade Federal Fluminense realizaram assembleias no dia seguinte à votação. Na capital fluminense, uma caminhada entre a Candelária e a Cinelândia reuniu manifestantes em 7 de outubro. No dia 18, a mobilização estudantil também se somou a um ato com artistas em Copacabana.

Em São Paulo, movimentos juvenis participaram da manifestação realizada em 11 de outubro, na Avenida Paulista, com a presença do presidente Lula. Em Brasília, o chamado “Ato da Virada” reuniu jovens e militantes, com destaque para a campanha de mobilização dos eleitores e de combate à abstenção.

A articulação também chegou a cidades como Belém, Fortaleza, Maceió, Goiânia, Belo Horizonte e Porto Alegre. Além da UNE e da Ubes, organizações juvenis, movimentos sociais e partidos políticos participaram de diferentes iniciativas.

Na Região do Cariri estudantes da URCA, da UFCA, dos institutos federais e estudantes secundaristas também foram às ruas e montaram neste segundo turno das eleições um calendário com várias atividades em Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.

A participação juvenil também alcança discussões sobre a atuação das plataformas digitais. Protestos diante da sede da Meta, em São Paulo, foram apresentados pelos organizadores como manifestações contra restrições a conteúdos e perfis progressistas e contra o que consideram interferências das plataformas no debate político. Essas alegações integram a disputa sobre transparência, moderação de conteúdo e liberdade de expressão no ambiente digital.

A defesa da democracia está ligada a demandas concretas da juventude. Para milhões de brasileiros, concluir a educação básica, ingressar na universidade, encontrar emprego com direitos e conquistar independência financeira são objetivos condicionados pela renda familiar e pelo acesso às políticas públicas.

O Programa Pé-de-Meia, criado em 2024 pelo governo federal, busca reduzir a evasão escolar e estimular a conclusão do ensino médio público por estudantes de baixa renda. Os incentivos financeiros estão vinculados a critérios como matrícula, frequência, aprovação e participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), conforme as regras do programa.

A iniciativa procura enfrentar uma realidade conhecida por muitas famílias: a necessidade de que adolescentes abandonem os estudos ou reduzam sua dedicação à escola para trabalhar e contribuir com as despesas domésticas. Ao oferecer incentivo financeiro, o programa busca ampliar as condições para que esses jovens permaneçam na educação básica.

No ensino superior, o Fies Social, também criado em 2024, ampliou as possibilidades de financiamento para estudantes de baixa renda. A modalidade reserva pelo menos metade das vagas do Fundo de Financiamento Estudantil para inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) que atendam aos critérios de renda estabelecidos.

Entretanto, ingressar na universidade não significa necessariamente conseguir concluir um curso. Para estudantes que precisam conciliar formação e trabalho, bolsas, restaurantes universitários, moradias estudantis e outras formas de assistência são fundamentais para reduzir os obstáculos econômicos à permanência acadêmica.

As políticas de cotas também ampliaram o acesso de jovens negros, indígenas, periféricos e de baixa renda às instituições de ensino. A continuidade e o fortalecimento dessas oportunidades dependem de condições que permitam aos estudantes permanecer na universidade e concluir sua formação.

A expansão dos Institutos Federais, com o anúncio de 100 novos campi, e os investimentos em educação integral e na retomada de obras educacionais paralisadas integram o conjunto de iniciativas voltadas à ampliação do acesso ao ensino. A efetividade dessas medidas, contudo, depende da execução dos investimentos, da infraestrutura disponível e da capacidade de atender às necessidades dos estudantes.

As reivindicações juvenis não terminam na sala de aula. A conquista de moradia, o acesso à saúde, a mobilidade e a inserção no mercado de trabalho também influenciam a possibilidade de construir uma vida independente.

Retomado em 2023, o programa Minha Casa, Minha Vida oferece subsídios e condições de financiamento para famílias que atendam aos critérios estabelecidos. Para jovens que buscam adquirir o primeiro imóvel, a iniciativa pode representar uma alternativa diante do custo elevado da moradia e das dificuldades de acumular recursos no início da vida profissional.

Na área da saúde, o Programa Dignidade Menstrual prevê a distribuição gratuita de absorventes para pessoas que atendam às condições de acesso. A política enfrenta uma situação de vulnerabilidade que afeta especialmente mulheres de baixa renda e pode comprometer a frequência escolar, o bem-estar e a participação em atividades cotidianas.

Outra medida é a CNH Social, cuja oferta depende da implementação pelos órgãos responsáveis em cada localidade. O custeio da habilitação para pessoas de baixa renda pode diminuir uma barreira para quem precisa dirigir para trabalhar ou ampliar suas oportunidades profissionais.

Essas iniciativas integram um debate mais amplo sobre a função das políticas públicas na redução das desigualdades. Para os jovens de famílias com poucos recursos, a possibilidade de estudar, obter qualificação, conseguir emprego e morar de forma independente depende não apenas do esforço individual, mas também das oportunidades disponíveis e das condições econômicas e sociais.

A entrada no mercado de trabalho constitui outro desafio para a juventude brasileira. Conseguir o primeiro emprego, obter remuneração adequada e ter acesso a direitos trabalhistas são preocupações que se somam à necessidade de conciliar trabalho, estudo, descanso e vida social.

Movimentos juvenis e organizações sindicais, entre elas a Central Única dos Trabalhadores (CUT), defendem políticas de geração de empregos com direitos, valorização salarial e melhores condições de trabalho.

As reivindicações também abrangem a saúde mental, o enfrentamento ao racismo e ao machismo, o respeito à diversidade e a proteção ambiental. São temas que atravessam a vida de jovens de diferentes regiões e classes sociais, embora seus impactos sejam desiguais conforme a renda, o território e as condições de acesso a serviços públicos.

Para a juventude das periferias urbanas e das áreas rurais, a distância entre a escola, a universidade e o local de trabalho, os custos do transporte e a falta de oportunidades próximas de casa podem limitar as possibilidades de formação e inserção profissional. Por isso, políticas de mobilidade, qualificação e desenvolvimento regional também fazem parte da discussão sobre o futuro dos jovens.

A mobilização dos estudantes e dos jovens trabalhadores demonstra que a participação política não se restringe ao momento de votar. Assembleias, manifestações, organizações estudantis e campanhas nas redes sociais são instrumentos de pressão e acompanhamento das decisões governamentais.

É importante, porém, reconhecer que a juventude brasileira não constitui um grupo homogêneo. Existem diferenças de opinião, prioridades e experiências entre jovens de regiões, classes sociais e realidades distintas. O que está em discussão é a capacidade de transformar expectativas em oportunidades reais. Educação de qualidade, emprego digno, moradia, acesso à saúde e respeito às liberdades são questões que influenciam diretamente as perspectivas de futuro de milhões de brasileiros.

Ao ocupar as ruas e reivindicar participação nas decisões nacionais, os jovens organizados reafirmam seu papel na vida pública. A democracia, nesse contexto, não se resume ao funcionamento das instituições ou à realização periódica de eleições: envolve também a possibilidade de a população participar das escolhas coletivas, defender direitos e cobrar resultados de seus representantes.

PARA PENSAR

A juventude que se mobiliza em 2026 coloca, assim, uma questão central para o país: quais condições o Brasil pretende oferecer às próximas gerações para que possam estudar, trabalhar, viver com dignidade e participar livremente da construção de seu próprio futuro?