A relação das mulheres com o meio ambiente
Luciana Bessa analisa como as crises ambientais afetam especialmente as mulheres e apresenta a perspectiva do ecofeminismo.

Por Luciana Bessa
A relação das mulheres com o Meio Ambiente
Alguns veem flores em você. O Feminismo vê a possibilidade de melhorar o planeta não só quando combate as estruturas de poder, quando luta pelo bem-estar coletivo, mas também quando clama pela sustentabilidade ambiental.
Enquanto alguns veem flores, outros criticam a atuação do Feminismo. “Nossa, mas também a teoria feminista está em todo e qualquer espaço?” “Vocês veem feminismo em tudo”. Como não? Feminismo tem como radical “femin”, termo latino “femina”, que significa “mulher”.
É verdade que a criação de uma nova vida humana acontece da união entre as células produtivas do homem e as células produtivas da mulher, mas a gestação só acontece no corpo feminino.
Nascer mulher é “nascer sob o signo da gestação”. Isso não significa que toda mulher deve ou vai ser mãe (eu, por exemplo, não sou). A existência feminina, histórica e socialmente, é atravessada pela possibilidade do vir a ser, da continuidade.
“Nascer sob o signo da gestação”, aqui, significa gerar ideias, projetos, relações etc. Não nos esqueçamos que são as mulheres, ao longo da História, as responsáveis pelo cuidado e a nutrição do outro. O tecido social caminha de “Mãos Dadas” (para lembrar do poeta gauche da literatura, Carlos Drummond de Andrade) com as mulheres. Quando esse tecido está adoecido, consequentemente, as mulheres também estão.
Então, sim, o Feminismo está entranhado no planeta quer você goste ou não! Mais do que uma teoria política que combate o sexismo e a opressão de gênero, o Feminismo é uma lente de leitura do mundo, que já detectou que precisamos promover mudanças profundas não só nas questões políticas, educacionais, econômicas, mas também, nas questões ambientais.
Como assim? A degradação do planeta afeta a todos nós, humanos e não humanos, mas em especial, a vida das mulheres. Relatórios divulgados pelo Fundo das Nações Unidas (ONU) mostram que são as mulheres mais pobres de países de terceiro mundo, as mais impactadas com as mudanças climáticas, embora sejam elas as que menos contribuem para o aquecimento global, haja vista que ganham menos, por isso, consomem menos.
Logo, são as mulheres (negras, ribeirinhas, quilombolas) que mais são atingidas com a falta de água, de lenha e de alimentos. Quando há seca, inundações, contaminação de rios por agrotóxicos ou garimpos, a jornada de trabalho dessas mulheres se torna mais exaustiva comprometendo a saúde física e mental da família.
Neste sentido, é inaceitável que eventos como a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, realizada em Belém, no Pará, em novembro de 2025, tenham tido poucas mulheres nas mesas de debates.
Ou seja, elas representam o grupo mais vulnerável quando se fala em desastres ambientais, mas ainda assim, ficam de fora das principais discussões. Enquanto isso, aqueles que têm mais acesso aos bens de consumo, degradam o planeta, já que compram em grandes quantidades. Quanto mais produtos são fabricados e comercializados (eletrodomésticos, roupas, calçados), mais matéria-prima é retirada da natureza, gerando mais descartes de lixos nos aterros, ruas, oceanos etc.
Quem nunca ouviu falar da teoria dos 4R’s da sustentabilidade criada para minimizar os impactos ambientais deveria ficar mais atento (a):
Repensar: Eu realmente preciso comprar tudo isso agora? Se sim, por quê?
Reduzir: Comprar menos, trocar e doar mais.
Reutilizar: Antes de jogar fora um objeto, que tal verificar se ele tem conserto, ou se pode ser reutilizado em outro espaço?
Reciclar: Constatou que não pode reutilizar, então, vamos reciclar?
Assim como o amor floresce quando é cuidado, o planeta também. Por isso, pergunto: já ouviu falar sobre Ecofeminismo? Trata-se de um termo usado pela escritora francesa Françoise d’Euabonne, no ano de 1974, em seu livro Féminisme ou la Mort – O Feminismo ou a Morte. Ecofeminismo nada mais é do que uma teoria que expõe que a dominação feminina e dominação do planeta estão ligadas pela mesma raiz – o patriarcado e o capitalismo, ou seja, ambos se sustentam ao explorar os recursos humanos e os recursos naturais.
No Brasil, fala-se e pesquisa-se ainda muito pouco sobre o Ecofeminismo. O trabalho de mulheres como Sônia Guajajara (Ex – Ministra dos Povos Indígenas), Marina Silva (Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima) entre outras têm contribuído para chamar as mulheres para amplificar essa luta, tal como movimentos “A Marcha das Margaridas” (homenagem a líder sindical paraibana assassinada em 1983, Margarida Alves, precursora na luta pelos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo), cujo lema é “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência”. Em suas pautas destacam-se a agricultura familiar e a agroecologia. É o ecofeminismo latino-americano.
O Ecofeminismo expande as pautas dos feminismos, já que entende que assim como os corpos das mulheres são violentados, o do planeta também (esgoto a céu aberto, contaminação dos rios e das praias, uso de agrotóxicos nas plantações etc. Infelizmente, o Ceará ocupa o 13º lugar no ranking de estados que mais consomem agrotóxicos no Brasil.
Historicamente as mulheres foram convocadas a cuidar. Essa convocação é ad infinitum já que as estruturas sociais e ambientais apodrecem a cada instante. Quando o governo do estado libera o uso de pesticidas alegando que combaterá as pragas das plantações, ele está contribuindo para a intoxicação crônica dos animais e das pessoas, nas mulheres ainda há o risco de má-formação e abortos espontâneos.
Em suma, as mulheres lutam para humanizar as crises climáticas, porque entendem que o debate ambiental está além de termos técnicos ou cumprimentos de metas. Elas lutam pelo meio ambiente porque sentem na pele o impacto imediato da destruição do planeta.
Com informações do Leia Sempre Brasil