8 de agosto de 2026
P20

 

Por Luciana Bessa

 

Primeiro romance da escritora e tradutora Bruna Dantas Lobato, Horas Azuis (2025) é uma narrativa que encanta pela simplicidade, delicadeza e sensibilidade ao trazer para o centro do palco a conexão entre uma filha e uma mãe.

Via de regra, a relação mãe-filha é marcada por vínculos de profunda cumplicidade e   conflitos geracionais. Não é o que acontece em Horas Azuis. Nesta obra não há cobranças, ressentimentos ou embates. Há uma mãe morando no Brasil e uma filha estudando nos Estados Unidos. Entre elas uma distância de mais de 6000km e o sentimento de saudade. Diferentemente da canção de Reginaldo Lustosa, “Adeus camarada”, “Quem parte leva a saudade/ Quem fica soluça e chora”, não há soluços ou choro, mas carinho, cumplicidade e preocupação de ambas as partes.

Não é à toa que a obra é dedicada “Para minha mãe e minha irmã / E para nós estrangeiros” e encontra-se dividida em três momentos:  Filha, Mãe e Reencontro. As personagens não têm nomes, posto que elas representam todas as mães que ficam em seu país de origem e todas as filhas que partem em busca de uma educação e de um futuro melhores.

Na primeira parte do livro, “Filha”, composto por onze capítulos, narrado em primeira pessoa, a personagem conta-nos sua chegada, depois de trinta horas de viagem, ao campus da universidade (Vermont). No primeiro instante, a jovem nos apresenta sua nova “casa” nos próximos anos e desfaz sua mala. Nela “só couberam meus diários, poucos livros favoritos, algumas roupas, frasquinhos de xampu e uma minibarra de sabonete para me ajudar a sobreviver nos primeiros dias”.  Além disso, havia “uma bolsinha de primeiros socorros” dada pela mãe para que ela pudesse “enfrentar o mundo”. Diante dessa descrição, me peguei imaginando como seria ficar longe do meu porto seguro, num país em que não conheço ninguém e com tão pouca coisa.

Ser estudante em outro país, além de deixar a nostalgia daqueles que ficaram, é saber lidar com a falta de uma rede de apoio, a pressão por desempenho acadêmico, especialmente quando se é bolsista integral, como também com o trabalho fora da universidade (nossa personagem trabalha nos correios dentro do campus). É preciso lembrar, ainda, do alto custo de vida. Nossa personagem declara que “não tinha condições de comprar nada do que fosse imediatamente últil, só o essencial disponível nas lojas listadas nos folhetos de boas-vindas aos alunos estrangeiros”. Justamente nos locais indicados ela pôde comprar um “abajur azul-marinho” para dar um pouco de cor aos tons bege de seu quarto. “Quando minha mãe me ligava pelo Skype, do nosso apartamento da periferia de Natal, era isso que ela via”.

Horas Azuis, nome do romance, representam todos os encontros, todos os momentos de alegria, de saudade, de preocupação e de cumplicidade entre mãe-filha. Também me lembra da expressão brasileira “tudo azul”, isto é, tudo bem, e do blues, gênero musical  criado pela comunidade afro-americana do sul dos EUA. A luz azul e o tom melancólico do blues conectam mãe-filha através da tecnologia, que traz um “aproximação falsa”, mas ao mesmo tempo é uma “aproximação”. Ao mesmo tempo que a internet rompe barreiras geográficas, ela reduz a intimidade das relações. Mas, quando se tem 6000 km de distância, é a internet que conecta estas duas mulheres.

A narrativa de Bruna Dantas Lobato, ganhadora em 2023 do National Book Award 2023, pela tradução da obra A palavra que resta, do cearense Stênio Gardel, é marcada pela dualidade:

– filha que se torna mãe x mãe que se torna filha,

-língua portuguesa x língua inglesa,

– calor brasileiro x frio americano,

– espaço físico (alojamento americano) x espaço virtual (Skype),

– Brasil x Estados Unidos.

A protagonista sente-se dividida entre tudo aquilo que ela deixou para traz e tudo aquilo que almeja conquistar.

Na segunda parte da obra, narrada em terceira pessoa, conhecemos a solidão de quem fica, “Mae”: “Sentia-se boba, infantil, apavorada com aquela que era a sua primeira vez morando sozinha”. No primeiro momento da narrativa, vemos uma mulher tentando manter suas forças para apoiar a decisão da filha. Com o passar do tempo, ela começa a sentir o peso do isolamento. Eis que decisão adotar um pet. “Na internet, ela procurou por um cachorro para adoção perto dela, cães pequenos e grandes que precisavam de companhia”. Mas o cachorro, como uma criança não a deixava dormir. Ela devolveu o animal e mais uma vez chorou, dessa vez, não pela ausência da filha, mas porque “sentia uma tremenda falta dele e estava cheia de culpa”. Essa mãe ainda tentou sair com um colega de trabalho. O encontro é “estranho”.

Na última parte do livro, “Reencontro”, terceira pessoa, o narrador fala da ausência da filha por vários “Natais, réveillons, aniversário das duas que nunca conseguiriam recuperar”. Na tentativa de “quitar essas dívidas”, a filha compra uma “passagem  barata” para Nova York “com uma escala de oito horas na Cidade do Panamá e mais quatro em Miami”.  Sem nunca ter andado de avião, sem falar uma única palavra de inglês, mãe e filha se encontram.

“Nunca pensei que viveria para ver este dia, disse a mãe”.

“Eu sei, disse a filha. Eu também não”.

Horas Azuis é uma obra sobre a intimidade  entre duas mulheres – mãe/filha- separadas pela geografia e unidas pelo vínculo de amor, confiança e cumplicidade.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *