8 de agosto de 2026
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A destinação inadequada de resíduos sólidos continua sendo um dos principais desafios ambientais do Cariri e pode agravar ainda mais os impactos das mudanças climáticas na região. Pesquisadores da Universidade Federal do Cariri (UFCA) e do Instituto Federal do Ceará (IFCE) alertam que a permanência de lixões a céu aberto aumenta os riscos de contaminação do solo, dos lençóis freáticos e da emissão de gases de efeito estufa, especialmente em períodos de estiagem prolongada e temperaturas elevadas.

O alerta ganha ainda mais importância diante da possibilidade de um novo episódio de El Niño, fenômeno climático que costuma reduzir as chuvas no Ceará e elevar as temperaturas. Em um cenário de seca mais intensa, a decomposição dos resíduos tende a acelerar, ampliando a produção de chorume e de gases como o metano, considerado um dos principais responsáveis pelo aquecimento global.

Segundo o último levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinisa), divulgado pelo Governo Federal, 20 dos 29 municípios da Região do Cariri ainda utilizam lixões como destino final dos resíduos sólidos, enquanto apenas dois municípios contam com aterros sanitários licenciados. Na Região Metropolitana do Cariri, que reúne nove cidades, a situação também preocupa: sete municípios ainda fazem descarte em lixões, evidenciando a deficiência da infraestrutura ambiental.

A professora Celme Torres, pesquisadora da UFCA, explica que a redução das chuvas compromete a recarga dos aquíferos subterrâneos, justamente quando aumenta a dependência da população por poços artesianos para o abastecimento de água.

“A diminuição das precipitações reduz significativamente a reposição das águas subterrâneas. Ao mesmo tempo, cresce a utilização desses mananciais para consumo humano, aumentando a vulnerabilidade caso ocorra algum tipo de contaminação”, destaca.

Essa contaminação pode ocorrer por meio do chorume, líquido altamente poluente produzido pela decomposição do lixo. Sem impermeabilização adequada, comum nos lixões, o material infiltra-se no solo e alcança os lençóis freáticos.

A engenheira ambiental e pesquisadora da UFCA, Amanda Pino, ressalta que o chorume contém metais pesados, amônia, nitrogênio e diversos compostos tóxicos que representam riscos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde pública.

“Muitos desses contaminantes não são eliminados pelos sistemas convencionais de tratamento de água, o que aumenta o risco de exposição da população”, alerta.

O professor Germário Araújo, coordenador do curso de Engenharia Ambiental do IFCE – Campus Juazeiro do Norte, explica que o calor intenso acelera a atividade dos microrganismos responsáveis pela decomposição dos resíduos.

“Com temperaturas mais elevadas, ocorre uma decomposição mais rápida do lixo, aumentando a produção de biogás e metano, que contribuem para o agravamento das mudanças climáticas”, afirma.

Consórcios avançam, mas problema ainda persiste

Nos últimos anos, os municípios do Cariri passaram a integrar o Consórcio Público de Manejo dos Resíduos Sólidos da Região do Cariri, criado para substituir gradativamente os lixões por sistemas ambientalmente adequados. A iniciativa prevê a implantação de estações de transbordo, centrais de triagem e o encaminhamento dos resíduos para aterros sanitários regionalizados.

Apesar dos avanços, especialistas avaliam que o processo ainda ocorre de forma lenta. Muitos municípios continuam enfrentando dificuldades financeiras, burocráticas e estruturais para encerrar definitivamente os lixões, situação que mantém o Cariri entre as regiões cearenses com maiores desafios na gestão de resíduos sólidos.

Outro problema apontado por pesquisadores é o baixo índice de coleta seletiva. Grande parte dos municípios ainda não possui programas permanentes de reciclagem nem estrutura suficiente para fortalecer cooperativas de catadores, fazendo com que toneladas de materiais recicláveis continuem sendo descartadas inadequadamente.

Mudanças climáticas aumentam preocupação

Além do El Niño, pesquisadores destacam que os efeitos das mudanças climáticas já são percebidos na região por meio de ondas de calor mais frequentes e períodos prolongados de estiagem. Esse cenário amplia o risco de incêndios em áreas de lixões, aumenta a emissão de gases tóxicos e favorece a proliferação de vetores de doenças.

Para Ingrid Botelho, gerente da Regenera Cariri, investir em gestão adequada dos resíduos deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a representar uma medida de proteção da saúde pública.

“A destinação correta do lixo é uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas. Proteger os recursos hídricos hoje significa garantir qualidade de vida para as próximas gerações”, afirma.

O que diz a Funceme

De acordo com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno altera a circulação atmosférica e, no Ceará, costuma provocar redução das chuvas durante a quadra chuvosa e aumento das temperaturas.

Segundo o diretor técnico da Funceme, Francisco Vasconcelos, eventos anteriores, como os registrados em 1983, 1998 e 2016, demonstraram que o Estado pode enfrentar precipitações abaixo da média e temperaturas acima do normal durante vários meses.

Para os especialistas, esse cenário reforça a necessidade de acelerar o encerramento dos lixões, ampliar a coleta seletiva e consolidar os aterros sanitários regionalizados como forma de reduzir riscos ambientais, proteger os recursos hídricos e preparar o Cariri para enfrentar os impactos das mudanças climáticas.

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