3 de abril de 2025
O espaço muda tudo

Foto: Reprodução

O espaço é um dos elementos essenciais na constituição da narrativa. O escritor se vale de algumas espacializações – espaço físico, espaço social, espaço psicológico – para contar a vida de determinados personagens em um dado período histórico.

Quem não tem seu espaço preferido?  Aquele lugar que você se sente segura e confortável para ser exatamente quem você é: longe do barulho e da pressão externa?

A convite da professora Cléo do Vale, o Nordestinados a Ler: Blog Literário (nordestinadosaler.co.br), que tem a missão de fomentar a literatura produzida por mulheres na região Nordeste, foi ministrar no dia 22 de março, uma oficina “Escritoras Nordestinas”, na Casa/Museu Telma Saraiva, rua Tristão Gonçalves, nº 505, no Centro do Crato.

Eu já conhecia o espaço, porque participei de uma aula de campo, ministrada pelo professor e historiador Jucieldo Alexandre, junto com os estudantes do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA) no ano de 2024.

Uma coisa é conhecer o espaço. Outro bem diferente é você vivenciar o espaço. Passar horas sendo reapresentada aquele ambiente por um dos filhos de nossa anfitriã, Ernesto Saraiva, tecendo comentários sobre cada cômodo, cada objeto, cada porta retrato na parede, cada máquina fotográfica, especialmente sobre a mãe dele, uma pioneira na arte contar história por meio da imagem, foi um momento único de descobertas e de aprendizados.

Confesso que embora eu já conhecesse aquele espaço, eu não havia sentido a força da mulher, mãe de cinco filhos – Ricardo, Roberto, Edilma, Edilson Filho e Ernesto – artista, pintora e fotógrafa autodidata, Telma Saraiva.

O Crato foi o lugar em que essa mulher nasceu, cresceu e viveu toda a sua existência dedicada à família, aos amigos, mas, especialmente, à fotografia e à pintura.

O ano de seu nascimento é simbólico: 1928, mesmo ano da publicação de dois romances: Macunaíma, de Mário de Andrade e A Bagaceira, de José Américo de Almeida.

Enquanto os paulistas revolucionaram a cultura literária com a 2ª Geração do Modernismo, Telma Saraiva revolucionaria o Nordeste (e além), ao trilhar o caminho do pai, Júlio Saraiva Leão, fotógrafo profissional, apreciador das artes, em especial o cinema, grande mentor e influenciador da filha. Instigada pelo cinema, Telma elaborava cada detalhe de suas fotos: luz, figurino, maquiagem, cenário.

Antes de fotografar, Telma Saraiva pintava os amigos na escola. Um deles lhe deu de presente uma câmera portátil bem mais fácil de manusear do que aquelas que a jovem via seu pai utilizar no estúdio fotográfico dele, Photo Riso.

O ano de 1949 marca um novo ciclo na vida dessa pioneira que conheceu a   técnica de colorização por meio de um anúncio em uma revista sobre cinema: o casamento. Aos 21 anos de idade contraiu núpcias com o artista plástico e também fotografo, Edilson Rocha.  Casada e morando ainda na casa dos pais, acabou assumindo a fotografia como ofício. Casa e estúdio fotográfico passou a ser um único espaço – Foto Saraiva.

Além da fotografia, Telma apaixonou-se pela fotopintura – técnica que possibilita o acréscimo de “cores” manualmente a uma fotografia em preto e branco. Isso só foi possível porque Telma pediu ao irmão, também fotógrafo, Salviano Leão, que escrevesse uma carta em inglês para que ela pudesse adquirir, nos Estados Unidos, seu primeiro estojo de tintas Marchal.

Fotografia. Fotopintura. Autorretrato.  São muitas as Telmas presentes nas paredes de sua casa, que se transformou no 8º Museu Orgânico da região do Cariri em 2021, e o 1º a fazer uma homenagem póstuma a uma personalidade do Ceará. São muitas as Telmas descritas no imaginário popular.

Seu filho Ernesto conta que “As pessoas tinham orgulho de ter uma fotografia 3×4 feita por ela”. A escritora Janir Ribeiro, uma das participantes da oficina de “Escritoras Nordestinas”, vaidosamente nos relatou que foi fotografada por Telma em duas ocasiões. De 1950 aos anos 2000, as lentes de dessa artista estiveram voltadas para políticos, clero, estudantes que se formavam e, claro, para ela mesma.

Em pleno ano de 2005, foi diagnosticada com um tipo de alergia que a impedia de fotografar. Um ciclo se fechou. Foi por volta desde período, que a fotografia digital chegou ao Brasil.

Em 2007, tornou-se imortal ao ocupar a cadeira de nº 14, que fora de seu pai, pelo Instituto Cultural do Cariri (ICC). Aos 86 anos, Telma Saraiva passa a fotografar em outros planos.

Eu, Luciana Bessa, e Ana Flaira, que entramos naquele espaço (Casa/Museu) para falar de doze escritoras nordestinas, saímos de lá absortas pelo olhar e a força de uma mulher que também construiu várias narrativas por meio da fotografia.

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