“Eu disse não!”: o relato de um brigadeiro sobre a tentativa de golpe e os riscos à democracia brasileira

O livro Eu disse não!, do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2021 e 2023, apresenta um relato sobre os acontecimentos que antecederam a tentativa de ruptura democrática no Brasil após as eleições presidenciais de 2022. A obra lança luz sobre as pressões exercidas sobre os comandantes militares e os riscos que as instituições democráticas enfrentaram naquele período.
Considerado por jornalistas um dos comandantes militares mais alinhados ao bolsonarismo — percepção que, segundo o próprio autor, também aparece em seu relato —, Baptista Junior descreve como se posicionou diante das articulações que, conforme as investigações, buscavam impedir a consolidação do resultado eleitoral e subverter a ordem constitucional.
Entre os episódios abordados está a discussão de uma minuta golpista em reunião realizada em 6 de dezembro de 2022, além das pressões sobre as cúpulas militares e do planejamento da chamada Operação Punhal Verde e Amarelo. Segundo os elementos reunidos nas investigações, o plano previa ações contra autoridades da República, incluindo a possibilidade de assassinatos.
Esses acontecimentos ultrapassaram o campo das disputas políticas e foram objeto de investigação da Polícia Federal, que reuniu documentos, depoimentos e outros elementos para apurar a tentativa de golpe de Estado. É importante, portanto, distinguir os relatos apresentados na obra dos fatos documentados pelas investigações e das conclusões estabelecidas pelas instâncias judiciais.
Mais do que um testemunho sobre os bastidores do poder, Eu disse não! provoca uma reflexão sobre os limites da autoridade, a instrumentalização política das instituições e o perigo de transformar lideranças em figuras supostamente acima da Constituição. O episódio também demonstra a importância da posição assumida por integrantes das Forças Armadas diante de pressões para romper a legalidade democrática.
A democracia não é uma conquista irreversível. Sua preservação depende de instituições sólidas, de autoridades comprometidas com a Constituição e de uma sociedade capaz de reconhecer os perigos do autoritarismo. Quando interesses pessoais ou projetos de poder se sobrepõem à vontade popular expressa nas urnas, toda a estrutura democrática fica ameaçada.
Conhecer a história recente do Brasil é, portanto, uma necessidade política e cidadã. Recordar os acontecimentos que colocaram em risco a democracia significa compreender a gravidade de uma tentativa de ruptura institucional e fortalecer a vigilância para que episódios dessa natureza não se repitam.
A democracia exige compromisso, responsabilidade e respeito à Constituição. Dizer “não” a qualquer tentativa de golpe não é uma opção ideológica: é uma obrigação de quem defende o Estado Democrático de Direito.
- Texto da advogada Karoline Marinho, no Instagram.