A resposta democrática ao extremismo tem a forma de um L de Lula

A vitória de Lula no Brasil mostra que o enfrentamento à extrema direita pode acontecer pelas urnas, pela inteligência política, pela mobilização popular e pela defesa da democracia, sem violência e sem abrir mão da esperança. Foi exatamente isso que os movimentos democráticos, sociais e populares, artistas, intelectuais, influenciadores digitais, educadores, a imprensa alternativa, os aposentados, a juventude e todos os setores envolvidos nessa luta democrática e a própria esquerda brasileira unida a setores da direta e centro-esquerda fizeram para que o segundo turno das eleições no Brasil terminasse com uma derrota do extremismo político.
PÁGINA 2 POLÍTICA
Como o L de Lula ganhou a eleição no Brasil e o mundo
Há gestos que ultrapassam a política e se transformam em símbolos de uma época. O L feito com os dedos, associado ao nome de Luiz Inácio Lula da Silva, é um deles. Para milhões de brasileiros, o gesto representa muito mais do que o apoio a um candidato, simplesmente expressa a defesa da democracia, a esperança de dias melhores e a convicção de que a política pode ser um instrumento de transformação social.
O Brasil viveu dias de muita angústia entre os dias 4 e 25 de outubro. A certeza da vitória do extremismo político expressada na campanha de Flávio Bolsonaro (agora um foragido do Brasil) fez com que diversos setores que não dialogavam há um bom tempo se unissem em torno da recondução de Lula à presidência. Podemos afirmar com certeza que para muitos nem significou votar em Lula, mas votar contra o extremismo, contra a retirada de direitos e contra o pensamento autoritário.
Em um mundo marcado pelo crescimento de uma extrema-direita antidemocrática, pelo crescimento de movimentos autoritários e pela disseminação de discursos de ódio, a experiência brasileira oferece uma reflexão importante de que é possível enfrentar a extrema direita (e o bolsonarismo) sem recorrer à violência política ou qualquer tipo de violência, utilizando a força do voto, a organização popular, a inteligência política e a capacidade de dialogar com a sociedade. E mais, a capacidade de unir pessoas nas ruas.
O L de Lula tornou-se uma marca reconhecida nas ruas, nas redes sociais, nos locais de trabalho e nas manifestações populares. É um gesto simples, acessível a qualquer pessoa, que comunica uma posição política sem precisar de palavras.
Em vez de punhos cerrados para o confronto físico, dedos que formam uma letra e expressam uma escolha. Em vez da intimidação, a mobilização. Em vez da violência, a disputa democrática.
Isso não significa ignorar a gravidade das ameaças à democracia, minimizar a violência política ou acreditar que os conflitos sociais possam ser resolvidos apenas com gestos simbólicos. Significa compreender que a resistência democrática precisa de estratégia, coragem, participação popular e respeito às regras democráticas e as leis que garantem a convivência entre diferentes.
A extrema direita não pode ser enfrentada apenas com indignação. É necessário compreender suas estratégias de comunicação, suas formas de mobilização, o uso das redes sociais e a exploração dos medos e das frustrações de parcelas da população. É preciso responder à desinformação com fatos, ao preconceito com direitos, ao autoritarismo com instituições democráticas e à desesperança com políticas públicas capazes de melhorar a vida das pessoas.
É preciso destacar que o movimento democrático que venceu as eleições no último domingo, 25, fez o dever de casa com esmero. Em primeiro lugar, ocupou as ruas com valentia. Milhares de estudantes iniciaram a retomada das ruas na segunda-feira, 5, na UFF em Niterói e ali deram o sinal que era possível mobilizar a juventude e as pessoas de forma geral. Em várias cidades brasileiras, nas capitais e no interior dos estados ocuparam as ruas sem se importar com as direções partidárias. Foram as ruas com seus afetos e suas reivindicações. Uma geração completamente nova, uma nova geração da esquerda que surge e que está vivendo e lutando no século XXI.
Outro passo importante foi saber utilizar as redes sociais e se sobrepor às movimentações extremistas. O Exército do Lula organizado pelo deputado André Janones foi fundamental nesta conquista, sem falar ainda de uma nova geração de jovens deputados e deputadas eleitos pelas esquerdas no Brasil que também compreendem o papel e a força das redes sociais no cotidiano das pessoas e mais do que nunca no processo político. E eles juntos fizeram a diferença unidos a mais de 10 milhões de brasileiros fazendo ações variadas e interagindo nas redes com tarefas diárias.
Se a coordenação da campanha de Lula claudicou no primeiro turno, no segundo turno a entrada dessa turma de jovens e de lideranças do Nordeste como Camilo Santana e Rafael Fonteles turbinou a campanha do petista e o levou à vitória.
O resultado demonstrou a importância da organização do campo democrático e popular, mas também da participação dos eleitores que ouviram o chamado, entenderam os recados e avisos e no dia 25 de outubro se mobilizaram contra tudo e todos e foram às urnas.
A experiência brasileira dialoga com um debate internacional sobre como conter o avanço de forças políticas que questionam instituições, desacreditam processos eleitorais ou promovem a intolerância contra adversários.
Na segunda-feira, 26, em todo o mundo dava para acompanhar a alegria dos setores democráticos, o alívio pela vitória de Lula e o mais interessante o L de Lula se transformou num sinal de luta contra o fascismo no mundo inteiro.
Lideranças da Espanha, da França, da Argentina, do México, e vários países gravando vídeos, falando da vitória e confirmando sim, podemos virar o jogo aqui também em nosso país.
Não existe uma fórmula única para enfrentar a extrema direita. Cada país possui sua história, suas instituições e suas contradições. Entretanto, a defesa da democracia exige princípios comuns como eleições livres, liberdade de imprensa, respeito aos direitos humanos, independência institucional e rejeição à violência política. E exige da sociedade e dos setores democráticos mobilização nas ruas, nas redes sociais, ampla unidade de ação e diálogo com o povo.
Nesse contexto, o L de Lula pode ser interpretado como um símbolo da mobilização democrática brasileira. Sua força não está apenas na figura de um líder, mas na capacidade de reunir pessoas em torno de uma escolha política e de transformar um gesto individual em manifestação coletiva.
A lição não é que um gesto, sozinho, possa derrotar o autoritarismo. É que símbolos podem ajudar a organizar sentimentos, fortalecer identidades coletivas e estimular a participação quando estão associados a ações concretas. O símbolo ganha significado quando se transforma em voto, debate público, fiscalização dos governantes, defesa de direitos e compromisso com a vida.
A resistência democrática não termina quando as urnas são apuradas. O resultado eleitoral estabelece quem recebeu a responsabilidade de governar, mas não encerra os problemas que alimentam a insatisfação social.
Combater a pobreza, ampliar oportunidades educacionais, proteger os direitos dos trabalhadores, garantir acesso à saúde e enfrentar as desigualdades são medidas que podem fortalecer a confiança da população na democracia. Ao mesmo tempo, nenhuma política pública dispensa transparência, avaliação de resultados e respeito ao dinheiro público.
Uma democracia forte precisa demonstrar, na vida cotidiana, que é capaz de oferecer respostas aos problemas reais da população. Não basta defender as instituições em discursos; é necessário fazer com que elas funcionem para todos, especialmente para quem historicamente teve menos acesso a direitos e oportunidades.
Também é fundamental reconhecer que os eleitores não formam um bloco homogêneo. Pessoas podem apoiar candidatos por razões econômicas, religiosas, culturais ou por insatisfação com os governos. Enfrentar politicamente a extrema direita exige compreender essa diversidade, disputar ideias e evitar que a crítica a projetos políticos se transforme em desprezo por pessoas.
Um gesto pode parecer pequeno diante da dimensão dos desafios brasileiros e internacionais. Mas a história demonstra que movimentos coletivos começam, muitas vezes, com sinais simples que ajudam as pessoas a reconhecer umas às outras e a perceber que não estão sozinhas.
O L de Lula pode representar, para seus apoiadores, a defesa da democracia e a esperança de um país menos desigual. Seu significado mais amplo, porém, depende do compromisso de quem o levanta: defender a liberdade, respeitar as diferenças, rejeitar a violência e trabalhar para que a política produza resultados concretos.
A ideia de que esse gesto salva vidas deve ser compreendida como uma metáfora política. Ele não salva vidas por si só. Mas a mobilização democrática que representa pode contribuir para impedir que a violência seja normalizada, que adversários sejam tratados como inimigos a eliminar e que a força substitua o diálogo e o direito.
A resposta ao autoritarismo não precisa reproduzir o autoritarismo. A luta política pode ser firme sem ser violenta, estratégica sem ser desonesta e apaixonada sem abandonar a razão.
Porque o verdadeiro sentido de um gesto democrático não está apenas na mão que o faz, mas nas atitudes que vêm depois. Defender a vida é defender a liberdade. Defender a liberdade é respeitar a democracia. E defender a democracia é compreender que nenhuma divergência política justifica a violência contra o outro.
PARA REFLETIR
No Brasil, o L tornou-se uma imagem de reconhecimento e mobilização para milhões de pessoas. Para além das preferências partidárias, fica uma questão essencial: como transformar a energia das eleições em uma cultura permanente de participação, justiça social e respeito à democracia?