Nordestinados a Ler Notícia

 Eu,  inútil!

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COLUNA NORDESTINADOS A LER

POR LUCIANA BESSA

 

 

 

Prêmio Ases da Literatura em Portugal como “Melhor Romance de Ficção” no ano de 2022, Eu, inútil, da escritora paraibana Cibele Laurentino, é uma daquelas narrativas para desromantizar de uma vez por todas a temática da maternidade, um dos assuntos recorrentes da literatura contemporânea.

A capa do livro é do designer João Alberto, filho da autora. O prefácio é assinado pela escritora cearense, Vanessa Passos, que discorre sobre a importância de as mulheres passarem a figuras “centrais tanto na escrita dos próprios livros quanto como personagens centrais dos livros”.  Quanto ao posfácio, ficou a cargo da psicóloga e mãe, Mayvone Morais, que descreve Helena como uma “mãe severa, narcisista, que imprime uma criação recoberta de conflitos” à filha, Madalena.

Lançado em mais de treze países da Europa Eu, inútil é um romance de formação em que o leitor / a leitora acompanha Madalena da infância até a vida adulta. No primeiro instante, somos apresentadas a uma criança gorda, que usa óculos – “um pouco mais de oito graus de miopia” – “diagnosticada” com déficit de atenção, dislexia, T.D.A.H, pela própria genitora a quem não podia chamar de “mãe”, “mamãe”, ou “mainha”, mas de Helena, uma auditora fiscal do INSS, bem-sucedida financeiramente, mas frustrada enquanto mulher.

Na juventude, Helena e Alfredo tiveram um breve relacionamento e ela engravida. Como uma “Quadrilha”, Helena amava Alfredo, que amava a liberdade. Para puni-lo e não ser julgada pela sociedade, especialmente pelos pais que a educaram para casar e ter filhos, ela toma remédio para abortar. “Madalena. Essa menina é tão sortuda que os remédios que tomei para abortar não serviram de nada, de tão ruim que é. Nasceu com quase cinco quilos em um parto normal, uma violência”. Sentindo-se rejeitada, Helena rejeita. Sentindo-se violentada, Helena violenta.

Quando eu penso nesta mãe, um misto de raiva, pena e revolta toma conta de mim. Helena  também é fruto do desamparo, de uma relação de cobranças e abusos. Em determinada parte da narrativa, ela expressa: “Mamãe sempre foi assim comigo, queria que desse meu sangue pelo mundo. Tudo o que eu fazia estava malfeito, dizia que eu seria uma péssima mãe quando me via amamentando essa daí”. Quando falta diálogo e amor, estala-se um ciclo de violência: avó, mãe e filha; o oprimido se torna opressor.

Aos oito anos de idade, nossa protagonista vai pela primeira vez à escola. Ao ser indagada pela professora como se chamava, responde: “Inútil, Mainha quer que eu seja pediatra, mas quero ser cozinheira”. Ao olhar na folha da chamada, a professora e aluna descobrem “Madalena… Madalena. Madalena!” “Que nome lindo!”.

Estamos diante de um nome expressivo, principalmente se formos em busca de seu significado: “força, resiliência e capacidade de renovação”. Fora e dentro da literatura, a jornada da(s) Madalena(s) são de muitas pedras no caminho para lembrar o poeta gauche, Carlos Drummond de Andrade, apresentado à Cibele pelo pai, o escritor e cordelista Zé Laurentino.

Com quarenta e um capítulos curtos, linguagem fluída e acessível, a obra não dá respiro ao leitor/à leitora (a violência contra a criança é um mal que assola o mundo), pois todos os dias de Madalena são marcados por surras e insultos: “Olhe essa postura, sua inútil! Está enorme de gorda” (…) “— Inútil, conseguiu torcer o pé? Está feliz agora? Bicha enorme, nem os pés aguentam”.

De todas as violências impostas à Madalena a que mais me doeu foi o fato de Helena tirar o óculos da filha por três dias, mas antes uma visitinha ao  “psicólogo”. “Dentro do guarda-roupa, pegou seu cinturão branco. Nele, estava escrito bem grande “psicólogo”. Eu nunca esqueci esse cinto. Tirou toda minha roupa em frente ao espelho. — Engole esse choro, menina! Se chorar, apanha mais!”. Sou dessa geração em que a força física era a principal ferramenta da disciplina e o choro do filho/da filha após o castigo. Chorar era sinônimo de rebeldia ou desrespeito aos pais.

Há um ditado popular que diz que “Não há mal que dure para sempre…”, e  o pai de Madalena aparece depois de mais de dez anos.  Até o momento, eu  acreditava que Alfredo era o típico homem que engravida uma mulher e desaparece da vida dela. “Olhe aqui, não se esqueça que ele não ama você coisa nenhuma. Nunca quis filha doente. Pediu pra eu abortar”. Quando Alfredo finalmente encontra mãe e filha, ficamos sabendo a outra versão dos fatos:

Primeiro ele diz à Helena: “— Você sabe bem que não é bem assim. Nunca reneguei a menina. Eu era muito jovem. O que eu não quis foi casar, assumir  um relacionamento com você. Não éramos sequer namorados, apenas vivemos um momento. Você que não aceitou minha aproximação para ter contato com minha filha”. Depois ele diz à Madalena: “Só este ano descobri que vocês estavam morando aqui e você estudando e tendo uma vida normal. Filhinha,  acredite, briguei muito para hoje estar com você. Acredite em mim”.

 

Alfredo dá à filha o que ela nunca teve: uma família. Madalena é acolhida por Marina, Janaina e Júlio.  Além disso, passa a fazer terapia. Uma rede de apoio foi fundamental para que o ciclo de violência em torno dela fosse quebrado.  Eis que  Madalena amadurece e melhora sua autoestima.

Sua vida dá um guinada de 360 graus: nossa protagonista passa no vestibular para Medicina, mas abandona. Esse era o sonho de Helena, o seu sonho era a gastronomia. Coloca seu próprio negócio e se abre para o amor. Como a vida é forjada da impermanência, casa-se com Olavo e engravida de uma menina, mas ele se sente traído, pois ambos haviam combinado que não teriam filho. Ele decide não fazer parte da vida de ambas. Madalena segue sua caminhada e ao amamentar  sente que a filha consegue enxergá-la com “ todo o amor que há ali para ela”.

A violência expressa de Eu, inútil é fruto de uma sociedade que coage as mulheres a serem mães, como se a maternidade fosse um destino natural ao gênero feminino. O “instinto materno inato” é um mito que precisa ser destruído, tal como a reprodução do ciclo de violência.