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Nossa Senhora sob ataque: a longa história de hostilidade de setores evangélicos contra Maria

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A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida e o senador Flávio Bolsonaro trouxe novamente à tona uma questão que provoca desconforto no mundo cristão: por que evangélicos demonstram tamanha hostilidade à figura da Virgem Maria?

A discussão ganhou força depois que circulou nas redes sociais a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O senador negou a intenção e classificou a informação como falsa. “Se eu for presidente do Brasil, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, disse num vídeo do dia 24 de agosto.

Para o catolicismo, Maria ocupa um lugar singular na história da salvação. É a mulher escolhida para ser mãe de Jesus, a “Mãe de Deus” — Theotokos, na tradição cristã — e uma figura central. A veneração dirigida a ela não é considerada adoração, distinção fundamental na teologia católica. A adoração pertence exclusivamente a Deus.

Curiosamente, a rejeição radical de Maria não corresponde necessariamente à tradição dos principais reformadores protestantes. Martinho Lutero e João Calvino, por exemplo, mantiveram uma visão elevada da Virgem. As primeiras igrejas surgidas da Reforma não trataram Maria simplesmente como uma mulher qualquer nem abandonaram, de imediato, a tradição da virgindade perpétua.

A hostilidade mais intensa contra Maria ganhou força posteriormente em determinados ambientes protestantes, especialmente em segmentos evangélicos marcados por uma forte necessidade de diferenciação em relação ao catolicismo.

Nesse universo, a veneração de Maria e dos santos frequentemente é apresentada como idolatria. O argumento é que qualquer oração que mencione alguém além de Deus representaria uma espécie de concorrência com o próprio Deus. Daí surgem críticas ao Rosário e à Ave-Maria, como se os católicos estivessem dedicando a Maria aquilo que deveria ser exclusivamente de Deus.

Essa interpretação não corresponde ao que a oração católica afirma. A própria Ave-Maria é uma oração baseada no texto bíblico. “Ave, Maria, cheia de graça” remete à saudação do anjo Gabriel no Evangelho de Lucas. “Bendita sois vós entre as mulheres” reproduz a saudação de Isabel. A oração termina justamente pedindo a intercessão de Maria junto a Deus.

A diferença entre veneração e adoração também costuma ser ignorada nesse debate. Para o catolicismo, venerar uma pessoa considerada santa não significa tratá-la como Deus. É uma forma de honra e respeito. A imagem não é considerada uma divindade, mas uma representação da pessoa retratada.

Imagens se tornaram alvo de episódios de violência no Brasil. A de Nossa Senhora Aparecida sofreu um atentado em 16 de maio de 1978. Foi quebrada em mais de 200 pedaços e precisou ser restaurada. O episódio entrou para a história da devoção mariana brasileira como um dos ataques mais graves contra o principal símbolo religioso do país.

Quase duas décadas depois, outro episódio se tornaria ainda mais conhecido. Em 12 de outubro de 1995, o pastor Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a santa e causou comoção nacional.

Ao longo dos anos, ocorreram outros casos de destruição ou vandalismo contra imagens sacras . Em 2005, houve um episódio relacionado ao Círio de Nazaré, em Belém, enquanto vídeos de pastoras e outros líderes religiosos destruindo imagens católicas também circularam posteriormente pela internet.

Há uma contradição curiosa nesse fenômeno. Maria não é uma personagem secundária ou estranha ao cristianismo. Ela está no centro dos relatos sobre a encarnação de Cristo. É mencionada nos Evangelhos e aparece junto aos primeiros discípulos de Jesus. A tradição cristã dos primeiros séculos dedicou enorme atenção à sua figura.

Também existe uma contradição nas críticas segundo as quais Maria estaria simplesmente “morta” e, portanto, seria impossível pedir sua intercessão. Muitos cristãos evangélicos acreditam que os mortos que estão com Deus permanecem vivos diante dele. A questão, portanto, não é simplesmente saber se Maria está “morta” ou “viva”, mas se existe uma comunhão entre os santos que permita pedir sua intercessão.

Para os católicos, essa resposta é afirmativa. O “Chute na Santa” é justamente um exemplo dessa passagem da disputa teológica para o confronto simbólico, que o bolsonarismo explora com seu ódio característico. Não houve ali uma discussão sobre os fundamentos bíblicos da devoção mariana. Houve um ato de agressão contra um objeto considerado sagrado por milhões de brasileiros.

Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma imagem dentro de uma igreja. Ela se tornou um dos maiores símbolos da religiosidade brasileira e recebeu oficialmente o título de Padroeira do Brasil em 1931.

A Virgem Maria é, para alguns ambientes religiosos, uma espécie de fronteira. Aceitar sua importância significa aproximar-se de uma tradição católica que esses grupos querem rejeitar. Atacá-la, ao contrário, funciona como uma maneira de reafirmar identidade e pertencimento.

É preciso separar duas coisas que frequentemente são confundidas: a crítica teológica à devoção mariana, perfeitamente legítima dentro do pluralismo cristão, e o desprezo ou a agressão contra aquilo que é sagrado para milhões de pessoas.

fonte: DCM