
Imagem ilustrativa gerada por IA (OpenAI) | Direção de arte: Leia Sempre Brasil
Eu passava descontraído pelos corredores da escola, na hora do recreio, quando rapidamente ouvi duas alunas dialogarem semelhantemente assim: – E eu dei ponto final. Quero saber mais dele não!
– E se ele ficar dando em cima de tu com o papo dele?
– Ponto. Encerrado o assunto. Ele que procure outra.
– Nisso, uma coisa me chamou a atenção: o valor determinante e conclusivo da palavra “ponto”. Se a gente parar para pensar no uso da língua portuguesa, poucas palavras são tão pequenas em tamanho, mas tão gigantescas em significado quanto a palavra “ponto”. Quem nunca respirou aliviado ao colocar um ponto final em um relacionamento que já não fazia bem, ou em um projeto de trabalho exaustivo? Nesse contexto, é evocar o poder máximo da decisão, onde não há mais espaço para argumentos ou vírgulas.
Segundo o matemático grego Euclides na sua obra Os Elementos de Euclides, escrita por volta de 300 a.C., o ponto é “aquilo que não tem partes, ou que não tem grandeza”. Creio que o simples e famoso ponto não possa ser definido por palavras, mas sim aceito sem definição. Depende muito do nosso momento segundo o qual ele é observado. Bom, e de qual ponto estamos falando? Nesse momento trato da palavra “ponto” rica em definições.
Com apenas cinco letrinhas, a palavra “ponto” consegue transitar pela matemática, pela geometria, pela moda, pela esquina de sua rua, pela culinária, pela geografia, pela religião, pelo microcosmo, pelo universo, pelo transporte público e até pelo encerramento de grandes ciclos da nossa vida.
Há um ponto que se traduz em coordenadas que definem o nosso lugar no mundo. Falamos em pontos cardeais para nos situar no planeta. Se o nosso foco é o globo terrestre, podemos estar nos referindo ao Ponto Zero que fica no meio do Oceno Atlântico; ou o ponto Nemo que é o local mais isolado e remoto do oceano no mundo.
No lado mais sóbrio da vida, o ponto carrega uma autoridade incontestável. Ele encerra um pensamento, fecha um capítulo, ele inicia um assunto e exige uma pausa.
O mesmo ponto que desenha um bordado delicado em um vestido é o que fecha um corte cirúrgico, salvando vidas.
É a obsessão de qualquer chef de respeito. Acertar o ponto do brigadeiro ou o ponto da carne é a linha tênue entre o sucesso gastronômico e um desastre na cozinha.
O ponto de partida e o ponto de chegada são fundamentais numa localização quando abraçamos a geografia e a tecnologia enviadas pelo WhatsApp a um amigo ou parente.
Duas pessoas podem olhar para a mesmíssima situação e enxergar coisas completamente diferentes, dependendo de onde estão paradas. Aqui, o ponto de vista consoante o qual observam os sujeitos é a base da empatia e do debate intelectual.
A palavra ponto e seus diferentes sentidos
A natureza nos presenteia com o misterioso ponto triplo onde há coexistência de três estados como sólido, líquido e gasoso ao mesmo tempo, de forma perfeitamente equilibrada. Temos o ponto de ebulição que transforma a água em vapor; o ponto de fusão que transforma o gelo em água líquida.
A invenção da imprensa de Gutenberg foi um ponto de virada histórico.
Decidir mudar de carreira ou dar uma segunda chance a alguém é um ponto de virada pessoal.
O ponto passa a ser um poste de metal onde as pessoas esticam o braço desesperadamente para o ônibus não passar direto. É o ponto de parada.
É você chegar correndo, faltando um minuto para o horário limite do trabalho, e o leitor não reconhece o seu dedo. Você tenta o polegar, o indicador, limpa a mão na velha calça jeans, reza para o seu santo, e quando finalmente consegue… bateu o ponto dois minutos atrasado. Eis o ponto biométrico. Aquela máquina ranzinza que parece ter vida própria.
É ela, lindíssima, dizendo finalmente pra ele, após terem marcado um ponto de encontro na praça:
– Você é um ponto fora da curva na minha vida!”.
Ele sorri, achando que é um elogio poético, até lembrar das aulas de estatística e perceber que ser um “ponto fora da curva” significa apenas uma anomalia do gráfico dela.
Seja no topo do gelo (o ponto de congelamento) ou no auge da discussão (o ponto crítico), o ponto nos mostra como a nossa língua é viva, maleável e profundamente expressiva. Ele prova que não precisamos de palavras difíceis ou dicionários complexos para expressar as maiores nuances da experiência humana. Basta saber usar o ponto certo, no momento certo.
E eu creio que não seria bem compreendido neste texto sem a presença de uma pontuação adequada.
Enfim, o ponto muda de cor e tamanho, de sentido e direção, mas não perde sua essência.
Ponto final.
Moral: Entre tantos pontos na vida, basta sabermos colocar um ponto de encerramento naquilo que nos machuca, e dar oportunidades a novas descobertas. Isso é ponto de equilíbrio.
Com informações do Jornal Leia Sempre Brasil