
Imagem: Reprodução
Em maio desse ano tive o prazer de estar presente na exibição crítica do filme, Crato contra o imperialismo, realizado pelo jovem aluno do Curso de Artes Visuais da Universidade Regional do Cariri-URCA e cineasta paraibano Fidel Barbosa. Desde cedo afetado pelo amor ao cinema e admirador de cineastas como Eduardo Coutinho, Petra Costa, Kleber Mendonça Filho, Werner Herzog, Godard, entre tantos outros, é interessante observar como toda uma geração de cineastas brasileiros consegue deixar suas marcas na produção de uma geração muito jovem de realizadores de cinema e audiovisual, o que já configura uma atitude anti-imperialista muito consciente no âmbito da produção cultural brasileira mais recente.
O cinema realizado por Fidel Barbosa não se destina à mera distração/evasão ou ao entretenimento fugaz, sem dúvida, podemos afirmar que se trata de um engajamento estético-político a serviço da construção de um olhar crítico e reflexivo da realidade que sua geração tem vivenciado. Ressalto como é gratificante ver um jovem estudante afinado com essa perspectiva de produção audiovisual num contexto tão fortemente impactado pela desinformação, fake-news, negacionismos históricos e outras circunstâncias nefastas que ameaçam a sobrevivência das democracias contemporâneas, inclusive no Brasil.
Essa resenha que compartilho com os interessados na cena atual da produção cinematográfica do Ceará e Cariri deve ser considerada apenas como impressões de uma espectadora interessada, não mais que isso.
O documentário, histórico e participativo, cujo roteiro foi inspirado no livro, Resistência, rota de fuga e refúgio: o Cariri cearense na ditadura militar (2019) do historiador caririense, Cícero Aurelisnor Matias Simião, oferece uma excelente oportunidade para conhecer as implicações históricas da presença do imperialismo norteamericano na realidade local durante o período da ditadura civil-militar. Ao longo do documentário um conjunto diversificado de experiências de indivíduos e grupos locais vão assumindo um protagonismo político e cultural de resistência ao domínio imperialista norte-americano, seja ele plenamente consciente ou não. Destaco um aspecto relevante Prof.ª Ms. Do Curso de História da Universidade regional do Cariri. josinete.souza@urca.br
na construção do enredo: não há uma hierarquização valorativa das práticas de resistência, sejam elas de grupos de militantes organizados à época da ditadura militar ou de brincantes de reisado, todas tem seu caráter de resistência, mais ou menos consciente, enfatizado na narrativa construída pelo cineasta.
Outra contribuição relevante nesse documentário é proporcionar a reflexão em torno das relações entre cinema, história e memórias, muitas vezes silenciadas – no passado e no presente –, relegadas ao esquecimento de mais de uma geração de jovens cidadãos caririenses e brasileiros de um modo geral.
O documentário revisita experiências da resistência política do Cariri, ainda no século XIX, desde a Revolução liberal Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador em 1824, bem como a fundação e o massacre da comunidade messiânica do Caldeirão Da Santa Cruz do Deserto. Nesse ponto preciso fazer uma ressalva que a percepção de um historiador não pode ignorar: representar essas experiências como resistência ao imperialismo, entendendo-se que o roteiro se refere predominantemente ao imperialismo norte-americano do pós-Segunda Guerra Mundial, pode sugerir anacronismo histórico, muito embora haja amplas discussões acerca do uso desse conceito para definir relações de dominação anteriores ao imperialismo industrial do final do século XIX.
Qualquer cidadão brasileiro, que minimamente tem acompanhado os noticiários brasileiros nos últimos anos consegue perceber o avanço das investidas imperialistas norte-americanas no Brasil, principalmente na esfera política, econômica e cultural. Uma escolha estético-política muito importante no filme foi articular continuamente presente e passado ao longo de toda a narrativa, evidenciando o compromisso político da produção artística com a reflexão crítica do tempo presente: um cinema realizado para nos afetar, provocar nossas memórias em oposição aos “silêncios” e “esquecimentos” que ainda alimentam a memória coletiva local.
Na tentativa de compor memórias da resistência, a narrativa se agrega a inúmeras fontes escritas, audiovisuais, depoimentos e entrevistas que vão consolidando o argumento central do documentário: a cidade do Crato como lugar de resistência e luta contra a dominação colonial e imperialista, extrapolando o protagonismo histórico de personagens já consagrados pela historiografia acerca do Cariri cearense e estendendo a o protagonismo da resistência aos sujeitos anônimos da história.
BEM-VINDO À CENA FÍLMICA CARIRIENSE!
Para acompanhar as futuras datas de exibição do filme pelo Cariri, acompanhe o cineasta
Fidel Barbosa no seu Instagram @fidel.b.f
VEJA:
Crato Contra o Imperialismo. Direção e Roteiro: Fidel Barbosa. Crato-CE, 2026, 77 min.
Com informações do Jornal Leia Sempre Brasil